Frane Zilic: "Los Angeles é de longe a capital da construção em madeira"
O terceiro dia do ciclo Biobío 2050: Los Angeles, capital da construção em madeira, teve como um de seus momentos mais destacados a apresentação de Frane Zilic, arquiteto, mestre em Construção em Madeira pela Universidade do Bío Bío e atual gerente do Programa Estratégico Regional da Corfo "Métodos modernos de construção sustentável em madeira".
A partir de sua experiência acadêmica e profissional, Zilic abordou a estreita relação entre a madeira e a sustentabilidade, convidando a olhar para este recurso não apenas como um material de construção, mas como um verdadeiro aliado na luta contra as mudanças climáticas e no desafio de projetar cidades mais eficientes, saudáveis e resilientes.
"Esqueçam a madeira por um segundo", propôs ao iniciar sua exposição. Com esse convite, buscou que a audiência refletisse sobre o papel das árvores como verdadeiros "painéis fotovoltaicos naturais" capazes de capturar energia, armazenar carbono e gerar um material versátil, reciclável e biocompatível: a madeira.
O expositor lembrou que a humanidade aprendeu a trabalhar este recurso desde suas origens, e que seu desenvolvimento tem acompanhado os grandes marcos do progresso humano: desde a exploração marítima até a construção de instrumentos musicais e aeronaves. Hoje, graças à tecnologia, a madeira se tornou um material capaz de substituir o aço e o concreto em múltiplas aplicações, abrindo caminho para uma nova arquitetura que combina sustentabilidade com inovação formal e estrutural.
Zilic ressaltou que as possibilidades da madeira são praticamente infinitas: pode ser talhada com precisão submilimétrica, utilizada em sistemas de pré-fabricação industrializada, aplicada em estruturas de grande altura —como torres de mais de 140 metros— ou em desenhos complexos que não seriam possíveis com outros materiais.
AMEAÇA GLOBAL
Zilic advertiu que a perda global de florestas ameaça este potencial. Nos últimos dez mil anos a humanidade destruiu dois bilhões de hectares de floresta, e metade dessa perda se concentrou em apenas 120 anos. No Chile, a situação não é diferente: perderam-se quinze milhões de hectares de floresta nos últimos dois séculos.
Diante deste cenário, sustentou que o grande desafio é conseguir que manter ou plantar árvores seja mais rentável do que substituí-las, por exemplo, pela agricultura. Para isso, apontou a urgência de modelos de gestão sustentável da paisagem florestal e de mecanismos de incentivo econômico, como o pagamento por serviços ecossistêmicos ou o fomento ao uso da floresta nativa com valor agregado.
"Se queremos mais madeira e mais florestas, ainda que soe contraditório, precisamos usar mais madeira", enfatizou. Em sua análise, enquanto existir demanda, haverá interesse por preservar e plantar florestas, gerando assim um círculo virtuoso que favoreça tanto ao meio ambiente quanto à economia local.
LOS ANGELES NO MAPA PRODUTIVO
Neste ponto, colocou a região do Biobío no centro do mapa produtivo. 98% da madeira processada que se produz no Chile provém do pinho radiata, cuja maior concentração se encontra precisamente nesta zona. E dentro dela, Los Angeles se destaca como o principal polo de pré-fabricação em madeira do país.
"75% das empresas que trabalham em pré-fabricação o fazem em madeira e estão fortemente concentradas nesta região. E a comuna que lidera essa atividade no Chile é Los Angeles, de longe", assinalou.
A afirmação se tornou a marca de sua intervenção: um chamado para que a comunidade local reconheça e potencialize seu papel como epicentro da construção sustentável em madeira. "Acreditem nisso, porque Los Angeles é a capital da construção em madeira. O material está aqui, as capacidades estão aqui e os argumentos estão mais do que claros", concluiu.
A exposição de Zilic não apenas aportou dados e reflexões, mas deixou em evidência que o futuro do desenvolvimento sustentável na região está intimamente ligado ao fortalecimento da cadeia produtiva da madeira. Uma oportunidade que, se assumida com visão de longo prazo, pode transformar Los Angeles em uma referência não apenas nacional, mas também internacional em construção sustentável, pontuou.
Fonte:La Tribuna