Desde 2010, as chamas destruíram no Chile mais de dois milhões de hectares devido a incêndios florestais, o equivalente a queimar juntas as regiões de Valparaíso e Santiago, as mais populosas do país.
Incêndios que passaram de comuns a mega-incêndios que assolam florestas e cidades em seu caminho, por uma série de razões combinadas que são explicadas à EFE pela Corporación Nacional Forestal (Conaf), a comunidade científica internacional e o Ministério do Meio Ambiente.
Fogo e atmosfera
O chefe do Departamento de Desenvolvimento e Investigação em Incêndios Florestais do Chile, Jorge Saavedra, apontou que um dos elementos centrais destes incêndios extremos é a interação direta entre o fogo e a atmosfera.
"O incêndio deixa de ser apenas um fenômeno que responde ao vento e passa a modificar as condições atmosféricas ao seu redor, gerando colunas convectivas muito intensas, mudanças locais de vento, entrada de ar em direção ao fogo e colapsos que produzem focos secundários a grande distância", explicou.
Nascem assim focos difíceis de prever, onde a capacidade de extinção não se limita ao número de efetivos utilizados, mas à previsão de onde pode surgir um novo foco.
Iñaki Bustamante, da Equipa de Avaliação e Apoio Florestal da União Europeia, que viajou ao Chile para ajudar no combate ao fogo, afirmou à EFE que era uma "questão de disponibilidade, não de recursos".
"Teríamos que saber que o incêndio vai ocorrer ali previamente e mobilizar toda a equipa. Mas uma vez que o incêndio começou, mesmo que tenhas uma resposta potente no início, seriam necessários tantos recursos que não existem para pará-lo", acrescentou.
Aumento do combustível para as chamas
A macro-seca que o Chile vive reduziu significativamente a humidade relativa no solo das florestas, somado ao fato de que, desde a década de 1970, o país passou por uma transformação no tipo de plantações que povoavam as florestas por motivos produtivos, com mais pinheiros e eucaliptos.
O aumento da temperatura e a ausência de precipitações desde 2010, fato que os especialistas científicos atribuem às mudanças climáticas, agravam estas circunstâncias.
Álvaro G. Gutiérrez, ecólogo da Universidade do Chile e do Instituto de Ecologia e Biodiversidade, falou de uma "homogeneização da paisagem".
"A homogeneização da paisagem que houve desde os anos 70 no Chile até hoje faz com que o fogo avance muito rapidamente pela vegetação. Os incêndios que vivemos são um drama ecológico, queimaram-se 800.000 hectares de vegetação natural, florestas únicas de espécies endêmicas chilenas que crescem apenas aqui", explicou.
Da Corporación Nacional Forestal insistem, também, que não se deve "demonizar" o processo de modificação do solo, já que "as plantações florestais tinham e têm um fim produtivo, com benefícios" e explicam que não é o tipo de vegetação o problema das chamas, mas sim "a continuidade e carga de combustível em escala de paisagem".
"O foco hoje não pode estar apenas no combate nem em atribuir responsabilidades a um tipo específico de floresta. O desafio é fazer convergir a gestão do território, a prevenção e a mitigação, para avançar em direção a cenários mais resilientes", acrescentou Jorge Saavedra, chefe do Departamento de Investigação e Desenvolvimento da Conaf.
Planos contra as mudanças climáticas
Da Secretaria Regional Ministerial (Seremi) do Meio Ambiente da Região de Biobío, local onde o incêndio 'Trinitarias' deixou 21 mortos, confirmou que o novo Plano Regional de Mudanças Climáticas se centra na mitigação e no manejo da paisagem para reduzir este combustível.
"A restauração da paisagem e a prevenção são os conceitos principais. Buscamos gerir a paisagem contra a propagação do fogo com medidas muito concretas e dando capacidades às comunidades do Chile", sentenciou o seremi Pablo Pinto.
Na temporada atual 2025-2026, que começou em setembro passado, já foram destruídos mais de 64.000 hectares, o que implica um aumento de mais de 226% em relação à temporada 2024-2025, quando foram queimados 19.252 hectares.
Fonte:Cooperativa
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