Quase dois meses após um dos maiores desastres socioambientais da história recente do Biobío e Ñuble, os incêndios que em janeiro consumiram milhares de hectares e centenas de casas, com cerca de vinte mortos e mais de 20 mil desabrigados, além da perda de vidas de animais domésticos e da fauna e flora silvestres, há danos imensos que são difíceis de ver nos sistemas socioecológicos, mas têm e terão impactos, por isso devem ser restaurados para garantir funções vitais para a natureza, as atividades produtivas e o bem-estar social.
Grandes extensões de solo foram destruídas desde o visível até o invisível: "os incêndios têm um impacto profundo no componente menor e muitas vezes ignorado de nossos solos, os microorganismos que os tornam férteis e vivos", destaca a doutora Jeanette Vera, acadêmica do Departamento de Ciências Básicas da Universidade do Bío-Bío (UBB).
A pesquisadora lidera uma linha que aborda a resposta das comunidades microbianas do solo a distúrbios como incêndios florestais e a recuperação de solos degradados usando microorganismos benéficos, e seu laboratório gerou evidências robustas da importância da microbiota nativa do solo e sua conservação como base da resiliência ecológica e produtiva.
Para esses estudos, cujos alcances apresentou como participante em um dos painéis do Congresso Futuro Biobío 2026, sua equipe coletou, cultivou e pesquisou microorganismos de Ñuble, da cordilheira ao litoral.
Vida a partir do invisível
O solo é uma base da vida, com funções como sustentar estruturalmente a natureza e a humanidade com suas moradias e desenvolvimento, abrigar a vegetação que fornece oxigênio e oferecer alimentos e recursos. E como sustenta a vida, é vida: a doutora Vera destaca que é um sistema vivo, muito diverso e complexo.
Aí têm um papel crucial os microorganismos como bactérias, fungos e protozoários, entre outros seres que nossos olhos não podem ver, mas compõem uma grande e vital biodiversidade para a natureza e as pessoas, alimentação, economias, desenvolvimento e bem-estar.
Para dimensionar essa diversidade, afirma que "em uma colher de chá de solo fértil pode haver mais microorganismos do que pessoas em todo o planeta, ou seja, da ordem de bilhões". E assim de diversos são seus papéis ecológicos.
Sobre isso, destaca que os micróbios reciclam a matéria orgânica e participam do ciclo de nutrientes e processos que favorecem o crescimento das plantas, que por meio da fotossíntese produzem oxigênio e podem ser cultivos que dão recursos como alimentos, madeira e economia.
"Além disso, os microorganismos contribuem para a estrutura física do solo, ajudando a formar agregados que melhoram a aeração e a retenção de água", especifica.
Um solo sem microorganismos é um solo degradado, que perde capacidades e fertilidade, e é mais vulnerável à erosão e à seca. Esse é o impacto profundo de um incêndio, o dano que vastos territórios locais sofreram neste verão, o risco crescente diante da crise climática que aumenta as condições propícias para desencadear sinistros de grandes proporções.
"Durante um incêndio de alta intensidade, as temperaturas superficiais podem superar 500°C, o que provoca a morte imediata de grande parte dos microorganismos do solo, especialmente nos primeiros 30 centímetros, que são os mais ativos biologicamente", adverte.
E, embora haja microorganismos muito resistentes e capazes de sobreviver, a comunidade fica empobrecida e alterada. De fato, conta que estudos mostram que, imediatamente após um incêndio severo, a biomassa microbiana pode diminuir de 80% a 90%.
"Por isso, hoje é fundamental falar não apenas de reconstrução visível, mas também de como recuperar a saúde biológica dos solos, como protegê-los frente a futuros incêndios e o papel da ciência nesse processo", manifesta.
Repercussões ambientais e sociais
O impacto dos incêndios no solo e seus microorganismos tem efeitos presentes e futuros.
A doutora Jeannette Vera expõe que, a curto prazo, diminui a atividade biológica, com menor reciclagem de matéria orgânica e nutrientes; a médio prazo, o solo perde estrutura e aumenta o risco de erosão, sobretudo em chuvas posteriores; e perde-se fertilidade e produtividade.
Nesse sentido, adverte que "a recuperação das comunidades microbianas pode levar anos ou até décadas, com consequências diretas para a fertilidade do solo, a produtividade agrícola e, em última instância, a segurança alimentar das comunidades rurais".
E acrescenta que "um solo biologicamente empobrecido precisa de mais fertilizantes químicos para manter rendimentos, mas mesmo assim as plantas costumam ser mais fracas e suscetíveis a doenças e estresse hídrico".
As evidências mostram que, após os incêndios, há diminuição sustentada da produtividade de solos agrícolas e florestais em zonas próximas, afetando a estabilidade dos sistemas produtivos, com impacto notável em pequenos produtores e economias locais. Além disso, pode alterar-se a disponibilidade de alimentos e recursos.
Recuperar e prevenir
O cenário atual e as projeções apresentam o desafio de recompor e conservar a microbiota nativa dos solos para sua recuperação após incêndios e degradação, e também para a preparação e resiliência ante eventos futuros.
E isso requer um trabalho investigativo e prático, desde conhecer cada solo com seus microorganismos até aplicar em campo esse conhecimento.
Os microorganismos do solo não se recuperam automaticamente, é necessária intervenção e manejo adequado, afirma a pesquisadora.
"A primeira etapa é devolver alimento ao solo, incorporando matéria orgânica como composto ou resíduos vegetais que atuam como substrato para os microorganismos", especifica.
Como segunda etapa, destaca usar microorganismos benéficos como bactérias promotoras do crescimento vegetal ou fungos micorrízicos que ajudam a restabelecer funções-chave do solo.
A antecipação e preparação são igualmente cruciais para a resposta, resiliência e conservação. Nesse horizonte, sabe e sustenta que é preciso cuidar dos microorganismos, e destaca que é necessário reduzir as atividades que alterem o solo, evitar o uso de agroquímicos, manter coberturas vegetais e promover sistemas produtivos mais diversos. Além disso, estudar e preservar a comunidade microbiana por meio de estratégias como coleta, análise e cultivo, como fizeram em seu laboratório.
Fonte:Diario Concepción
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