Quase 4 anos após a implementação do Estado de Exceção na Macrozona Sul, já está disponível a edição N°61 do Boletim Regional do Núcleo de Humanidades e Ciências Sociais Faro UDD, intitulada "Insegurança na Macrozona Sul e seu impacto na indústria florestal". O relatório analisa como a persistência da violência impactou a atividade florestal, o emprego e o investimento, bem como seus efeitos no desenvolvimento regional e na percepção de impunidade.
O conflito se intensificou a partir da década de 1990, com o surgimento de organizações radicalizadas como CAM, WAM, RML e RMM, responsáveis por ataques contra infraestrutura pública e privada, especialmente do setor florestal.
Viviana Véjar, economista e professora pesquisadora do Faro UDD, afirmou que entre 2019 e 2024, foram registrados 629 ataques incendiários na macrozona sul, com perdas próximas a US$ 124 milhões. "Que efeito esse nível de violência teve na atividade econômica e no investimento na área? A violência atingiu fortemente a economia da macrozona sul, provocou perdas em infraestrutura e maquinário, e gerou uma incerteza que freia o investimento privado. Os ataques elevam os custos, atrasam projetos e fazem com que muitas empresas não se expandam ou se retirem. Na prática, isso enfraquece a confiança e o crescimento de uma zona com alto potencial produtivo. No Biobío, a produção de madeira serrada caiu trinta e oito por cento entre dois mil e dezesseis e dois mil e vinte e três, e a área plantada diminuiu onze por cento. O que explica esse retrocesso em um dos setores produtivos mais importantes da região? Esse retrocesso responde a vários fatores, mas a insegurança sustentada é central. A indústria florestal precisa de planejamento de longo prazo, proteção e certezas para investir e produzir.", destacou.
Impacto produtivo na indústria florestal
A atividade florestal é o principal setor exportador do Biobío e mantém um peso relevante na Araucanía. Entre 2018 e 2025, as exportações florestais do Biobío atingiram cerca de US$ 38 bilhões. No entanto, diversos indicadores mostram uma deterioração sustentada na atividade produtiva.
Entre 2016 e 2023, o plantio anual no Biobío diminuiu 11%, enquanto a produção de madeira serrada caiu 38%. Na Araucanía, a área plantada se reduziu 32% entre 2019 e 2023 e a produção de madeira serrada baixou 23% entre 2016 e 2023. No mesmo período fecharam 59 serrarias em ambas as regiões, refletindo a contração do setor.
Lacunas territoriais na produção
A análise provincial confirma essas tendências. No Biobío, a produção de madeira serrada se concentra em Arauco e Biobío, mas entre 2013 e 2023 foram registradas quedas de 24% em Arauco e 68% em Concepción, enquanto a província do Biobío mostrou uma redução de 2%.
Na Araucanía, a lacuna entre províncias também é significativa. Cautín registrou uma produção média de 787 mil m³ anuais, frente a 99 mil m³ em Malleco, onde além disso a produção se reduziu 52% na última década.
Impacto no emprego e desenvolvimento regional
A queda da atividade florestal também se reflete no mercado de trabalho. Entre 2016 e 2023, o emprego do setor diminuiu aproximadamente 38% no Biobío e 17% na Araucanía.
Este cenário coexiste com indicadores sociais atrasados. A Araucanía apresenta uma pobreza multidimensional de 19,8% (CASEN 2022), uma das mais altas do país, o que evidencia as dificuldades para transformar sua base produtiva em maiores níveis de bem-estar.
Impunidade e fragilidade institucional
Paralelamente, a persecução penal apresenta resultados limitados. Apenas cerca de 3% dos processos vinculados à violência rural terminam em formalização e aproximadamente 4% em condenação, enquanto cerca de 80% dos casos são arquivados sem perseverança na investigação.
Desafios de política pública
Diante deste cenário, a análise levanta a necessidade de avançar em medidas simultâneas em segurança, justiça e desenvolvimento econômico. Entre elas, fortalecer a presença do Estado com estratégias de segurança permanentes, melhorar a capacidade investigativa e acelerar a resposta judicial.
Da mesma forma, propõe-se implementar programas de reparação econômica para as vítimas, incluindo subsídios de reconstrução, isenções tributárias temporárias e acesso preferencial a crédito, juntamente com uma estratégia de desenvolvimento territorial de longo prazo que promova investimento, diversificação produtiva e maiores oportunidades para as comunidades locais.
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