O cenário enfrentado pela Macrozona Sul trouxe consequências diretas, especialmente para os trabalhadores e para as zonas rurais. Após quase quatro anos da implementação do Estado de Exceção na Macrozona Sul, o debate sobre seus efeitos permanece aberto. Enquanto alguns indicadores mostram uma diminuição dos ataques incendiários, a incerteza e a violência acumuladas durante mais de uma década continuam deixando marcas na atividade florestal, no emprego e no desenvolvimento regional.

É o que apresenta a edição N°61 do Boletim Regional do Núcleo de Humanidades e Ciências Sociais Faro UDD, intitulada "Insegurança na Macrozona Sul e seu impacto na indústria florestal", que analisa como este cenário afetou um dos setores produtivos mais relevantes do sul do país.

Metade dos imóveis destruídos correspondeu a moradias ou cabanas, enquanto 30% afetaram galpões, evidenciando a extensão dos danos além das grandes empresas.

No entanto, além dos números da violência, o impacto se reflete com maior clareza na evolução da atividade produtiva.

UMA INDÚSTRIA EM RETROCESSO

A indústria florestal é um dos principais setores exportadores da região do Biobío e um dos pilares econômicos da Araucanía. Somente entre 2018 e 2025, as exportações florestais do Biobío atingiram cerca de 38 bilhões de dólares; apesar disso, os indicadores mostram uma deterioração sustentada.

O relatório constata que, entre janeiro de 2019 e janeiro de 2024, foram registrados 629 ataques incendiários na zona, com perdas estimadas em 124 milhões de dólares.

"O principal impacto tem sido nos trabalhadores. Hoje há menos postos de trabalho e menor campo laboral para os contratistas florestais", afirmou o gerente da Associação de Contratistas Florestais, René Muñoz.

Segundo explicou Muñoz, a insegurança tem limitado inclusive o acesso a zonas produtivas. "Há aproximadamente 100 mil hectares capturados por grupos violentos; isso significa que não podem ser intervencionados, porque é muito inseguro. Nós não vamos expor nossos trabalhadores".

O gerente da Acoforag acrescentou que esta situação freou o desenvolvimento local em comunas onde a atividade florestal era uma das principais fontes de emprego. "Hoje, há zonas completas onde não há trabalho formal", advertiu.

A isso soma-se o fechamento de 59 serrarias em ambas as regiões, o que evidencia uma contração estrutural do setor.

Para a economista e pesquisadora do Faro UDD, Viviana Véjar, este cenário responde a múltiplos fatores. "A indústria florestal tem sido enormemente afetada. As causas são multicausais, mas os sindicatos e os resultados judiciais dão conta de que muitos fatos têm relação com ataques incendiários", afirmou.

No entanto, advertiu que nos últimos anos se somaram outros elementos, como o contexto internacional. "Hoje a queda nas exportações e na produção também tem a ver com a demanda externa, especialmente com a desaceleração da China, um dos principais parceiros comerciais", indicou a especialista.

A deterioração não tem sido uniforme. No Biobío, a produção de madeira serrada concentra-se nas províncias de Arauco e Biobío, mas entre 2013 e 2023 registraram-se quedas de 24% em Arauco e de 68% em Concepción, enquanto Biobío teve uma diminuição marginal de 2%.

Na Araucanía, as diferenças são ainda mais marcadas. A província de Cautín alcança uma produção média de 787 mil metros cúbicos anuais, frente a apenas 99 mil em Malleco, onde - além disso - a atividade caiu 52% na última década.

Estes números refletem não apenas um retrocesso produtivo, mas também uma crescente desigualdade territorial no desenvolvimento do setor.

Um dos efeitos mais visíveis desta contração é o emprego. Entre 2016 e 2023, o trabalho no setor florestal diminuiu cerca de 38% no Biobío e 17% na Araucanía.

VISÕES CONTRAPOSTAS E CRÍTICAS AO DIAGNÓSTICO

Nem todos os atores do setor florestal concordam com a análise do relatório elaborado pelo Faro da Universidad del Desarrollo. Do mundo dos contratistas florestais questionam o enfoque do documento.

"Os números não refletem a realidade completa, porque não consideram o impacto em quem está diretamente no terreno", sustentou Muñoz, que criticou que o estudo se centre em infraestrutura destruída e não na atividade produtiva.

Das PMEs do setor, por sua vez, aponta-se para um problema estrutural mais amplo.

O presidente da PymeMad Biobío, Michel Esquerré, afirmou que a insegurança na Macrozona Sul responde a um problema estrutural que o Estado não conseguiu abordar de maneira sustentada ao longo do tempo.

A falta de continuidade nas políticas públicas e a ausência de acordos políticos transversais têm impedido avançar em uma estratégia comum que enfrente uma crise que combina fatores históricos, territoriais e culturais.

Nesse contexto, Esquerré sustentou que um dos nós críticos reside na incapacidade de gerar uma política integral que atenda às demandas dos povos originários, particularmente em matérias como a restituição de terras e o reconhecimento cultural.

Esta dívida, afirmou, permitiu que o conflito se prolongasse e, paralelamente, que surgissem grupos violentos que, sem representar necessariamente a totalidade das comunidades, se posicionaram como porta-vozes dessas causas.

Na opinião do representante sindical, a falta de presença efetiva do Estado em certas zonas tem favorecido dinâmicas de controle territorial por parte de grupos violentos. Nestes espaços, indicou, predominam a intimidação, o silêncio e a impunidade, enfraquecendo ainda mais as condições para o desenvolvimento produtivo e a convivência social.

Um dos setores mais afetados é o florestal, cujo planejamento produtivo se projeta a longo prazo. Com ciclos que podem se estender por mais de 20 anos entre o plantio e a colheita, a incerteza gerada por atos de violência freou investimentos, reduziu a atividade e limitou tanto o reflorestamento quanto a exploração de recursos. Isso, por sua vez, repercute no emprego e na estabilidade econômica das comunidades locais.

Diante deste cenário, Esquerré afirmou a necessidade de avançar rumo a um enfoque de política de Estado, inspirado em experiências internacionais, que transcenda os governos de ocasião e articule soluções de longo prazo. A proposta visa integrar as demandas dos povos originários, as necessidades dos setores produtivos e a realidade das comunidades que habitam estes territórios, com o objetivo de construir condições de paz e desenvolvimento sustentável.

Nessa linha, o dirigente é crítico das medidas implementadas até agora, como os estados de exceção e o desdobramento de forças de segurança, as quais considera insuficientes para resolver o problema de fundo. Embora reconheça seu papel no controle imediato da violência, advertiu que estas ações tendem a manter o conflito em um estado de contenção mais do que a solucioná-lo.

"A paz não se constrói apenas com resguardo policial", sustentou. Na sua opinião, o desafio reside em desenhar e implementar uma estratégia que entregue certezas a todos os atores envolvidos e permita avançar rumo a uma convivência baseada no respeito, na segurança e no desenvolvimento equitativo dos territórios.

TRANSPORTADORES FLORESTAIS

Por sua vez, o presidente da Federação Nacional de Sindicatos do Transporte Florestal, Heriberto López, explicou que o sindicato que representa agrupa condutores de carga, trabalhadores de estrada, operários de plantas florestais e pessoal vinculado diretamente a fainas no bosque.

Trata-se de uma ampla rede de trabalhadores que sustentam uma parte chave da cadeia produtiva florestal, mas que hoje desempenham suas funções em condições marcadas pela incerteza. "Cada vez é maior o temor de ir trabalhar", advertiu, aludindo à exposição constante a atos de violência nos territórios.

Desde sua perspectiva, o conflito derivou em um cenário onde distintos atores buscam justiça por vias paralelas. Por um lado, o Estado impulsiona processos judiciais por atentados incendiários, roubo de madeira e outros delitos que têm afetado tanto empresas quanto infraestrutura pública. Por outro, persistem demandas históricas de comunidades que reclamam a restituição de terras e o reconhecimento de direitos que consideram violados.

No meio dessa tensão, os trabalhadores asseguram ficar presos em uma posição intermediária. "Estamos no meio desta confusão", resume López, enfatizando que não representam nem empresas nem comunidades, mas pessoas que dependem destes trabalhos para subsistir. Esta condição, indica, os obriga a evitar qualquer tipo de confrontação e a optar por uma postura centrada no diálogo.

Neste sentido, insistiu em que o chamado é para construir condições mínimas de convivência que permitam garantir o livre trânsito e o acesso seguro às fainas. No entanto, advertiu que os episódios de violência costumam ter efeitos colaterais que recaem diretamente sobre o transporte florestal e as operações produtivas. "Quando há detenções ou processos judiciais, as reações não se dirigem aos tribunais, mas aos territórios. E aí estamos nós", afirmou López.

A persistência do conflito tem obrigado o setor a modificar suas dinâmicas de trabalho. Entre as medidas adotadas destacou evitar deslocamentos noturnos e restringir o acesso a zonas consideradas de maior risco. Estas decisões, muitas vezes coordenadas com empresas do setor, refletem uma tentativa de reduzir a exposição em um contexto onde, asseguram, as garantias de segurança continuam sendo insuficientes.

"Tivemos que mudar nossas rotinas, evitar trabalhar à noite ou ingressar em certos setores. Isso mostra que o problema continua aí".

Presidente da Federação Nacional de Sindicatos do Transporte Florestal, Heriberto López.

Embora López tenha reconhecido que a presença de forças policiais e militares, junto com os estados de exceção, tem contribuído para diminuir a quantidade de atentados; no entanto, foi enfático ao expressar que estas medidas não resolvem o problema de fundo. "Isto não se resolve apenas com presença policial. É necessário diálogo e acordos entre o Estado e as comunidades", pontualizou o presidente da Federação Nacional de Sindicatos do Transporte Florestal.

Na opinião do dirigente, o cenário atual está longe de permitir uma normalização das atividades como ocorria décadas atrás, acrescentando que esta realidade tem sido internalizada pelos trabalhadores, que continuam desempenhando seus trabalhos sob condições de risco controlado, mas persistente.

Apesar disso, desde o sindicato insistem em uma postura clara: não se alinhar com nenhum setor em conflito, mas resguardar o direito de trabalhar. "A única coisa que buscamos é poder trabalhar com segurança, mas hoje nem o Estado nem as medidas atuais o garantem completamente", indicou.

OS DESAFIOS PENDENTES

Diante deste cenário, o relatório propõe avançar em uma estratégia integral que combine segurança, justiça e desenvolvimento econômico.

Entre as medidas apresentadas destacam o fortalecimento da capacidade investigativa, uma resposta judicial mais rápida e efetiva e a implementação de programas de reparação para as vítimas, como subsídios de reconstrução, isenções tributárias e acesso preferencial a crédito.

Assim mesmo, destaca a necessidade de uma estratégia de desenvolvimento territorial de longo prazo que promova o investimento, a diversificação produtiva e maiores oportunidades para as comunidades locais.

Fonte:La Tribuna


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