Reconstruir uma parte da história ambiental do território para projetar melhores decisões de conservação e restauração é um dos propósitos do projeto Fondecyt de Iniciação "Incêndios florestais e atividade antrópica como impulsionadores da erosão na zona centro-sul do Chile durante o Holoceno", liderado pela acadêmica do Departamento de Ciências Básicas da Universidade do Bío-Bío, Dra. Patricia Jana Pinninghoff.
A pesquisa propõe-se a analisar a ocorrência de incêndios florestais nos últimos 1.500 anos na Região de Ñuble, juntamente com a identificação dos níveis de intervenção humana e sua relação com os processos de erosão. Neste marco, o estudo examinará como atividades como a agricultura ou a introdução de plantações florestais têm incidido na dinâmica erosiva, seja mitigando-a ou intensificando-a.
"Buscamos reconstruir os períodos de incêndios e também de intervenção humana, e vinculá-los com os processos erosivos do território. Isso nos permitirá compreender como diferentes atividades influenciaram na degradação ou conservação dos solos", explicou a Dra. Jana.
Da mesma forma, o projeto abordará a evolução da frequência de incêndios e o papel da ação antrópica no seu aumento, considerando antecedentes que evidenciam um incremento sustentado desde a década de 1970. A partir desta reconstrução, espera-se determinar se este fenômeno responde a uma tendência recente ou se apresenta antecedentes em séculos anteriores.
Registros naturais para reconstruir o passado
A pesquisa sustenta-se na análise de sedimentos lacustres, os quais se depositam de maneira contínua no fundo dos lagos, formando camadas anuais que permitem estabelecer cronologias precisas. Estes registros naturais contêm informação chave sobre as condições ambientais do passado.
O estudo desenvolver-se-á na lagoa Coyanco, localizada na comuna de Florida em Biobío, em um setor cuja bacia hidrográfica vincula-se com Quillón, o que possibilita inferir processos históricos relevantes para a Região de Ñuble. Através da análise de diferentes indicadores, buscar-se-á identificar práticas agrícolas, estabelecer marcadores temporais e avaliar o impacto da intervenção humana desde a chegada dos primeiros espanhóis há aproximadamente 500 anos.
Para isso, empregar-se-ão técnicas de paleolimnologia, disciplina que permite reconstruir condições ambientais e climáticas a partir de sedimentos lacustres. "Este tipo de estudos não foi realizado na Região de Ñuble, por isso existe uma oportunidade de gerar conhecimento inovador sobre a história ambiental do território", destacou a pesquisadora.
Evidências microscópicas de incêndios e erosão
Entre as metodologias consideradas, analisar-se-ão partículas microscópicas de carvão presentes nos sedimentos, o que permitirá identificar a ocorrência e frequência de incêndios florestais ao longo do tempo. Este enfoque busca complementar os registros históricos disponíveis, que assinalam, por exemplo, o uso do fogo para habilitar terrenos durante o processo de colonização.
Paralelamente, o estudo incorporará a análise de elementos de origem terrestre, como o titânio, cuja presença nos sedimentos lacustres constitui um indicador de erosão. "Se observarmos um aumento destes elementos ao longo do tempo, podemos associá-lo a maiores processos de arraste de material desde a bacia hidrográfica para o lago", precisou a Dra. Jana.
Esta análise complementar-se-á com outros indicadores, como mudanças no tamanho do grão sedimentar, o aporte de nutrientes e a acumulação de carbono orgânico, o que permitirá reconstruir de maneira integral a dinâmica erosiva do território e sua relação com fatores naturais e antrópicos.
Contribuições para a gestão ambiental e a restauração
A acadêmica sublinhou que compreender a história do território resulta fundamental para orientar a tomada de decisões futuras em matéria ambiental. "Conhecer o que ocorreu no passado é chave para definir como queremos intervir no presente, seja para conservar ou restaurar ecossistemas", assinalou.
Nessa linha, o projeto permitirá contar com informação sobre as características originais dos solos, os processos de degradação e as transformações experimentadas ao longo do tempo, contribuindo para estabelecer objetivos claros de restauração e para definir as estratégias mais adequadas para sua implementação.
Desta forma, a iniciativa não apenas aportará conhecimento científico em uma área pouco explorada na zona centro-sul do país, mas também entregará insumos relevantes para a gestão sustentável do território.
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