O Chile enfrenta hoje um paradoxo preocupante. Enquanto o mundo avança com urgência em direção a soluções baseadas na natureza para enfrentar as mudanças climáticas, nosso país deixou cair, silenciosamente, uma de suas principais ferramentas: a forestação.

Há mais de uma década, não existem incentivos efetivos para florestas em terrenos desprovidos de vegetação. O resultado é evidente e alarmante. Segundo dados da CONAF (2023), o país passou de florestas em média 48.600 hectares anuais entre 2000 e 2010, para apenas 1.737 hectares entre 2021 e 2023. Não se trata apenas de uma baixa estatística, é um sinal claro de abandono.

E, no entanto, o potencial ainda está lá. De acordo com o Instituto Florestal (Infor), existem cerca de 1,5 milhão de hectares com severa erosão que poderiam ser recuperados. São solos que hoje não produzem, mas que poderiam se transformar em uma oportunidade concreta de desenvolvimento, restauração ambiental e captura de carbono. O que falta não é terra, nem conhecimento técnico. O que falta é decisão.

As florestas não são um luxo nem uma questão setorial. São infraestrutura natural crítica. Protegem a biodiversidade, regulam a água, capturam carbono e geram emprego. Ignorar seu valor é, na prática, renunciar a uma estratégia de desenvolvimento sustentável.

Mas há um problema ainda mais profundo. A ausência de políticas de fomento se combina com uma deterioração evidente da segurança nas zonas florestais. A violência nos territórios — expressa em ataques a obras e na crescente intencionalidade de incêndios — instalou um clima de incerteza que afugenta o investimento e paralisa novos projetos. Sem segurança, simplesmente não há desenvolvimento possível.

O país não pode se dar ao luxo de perder o que foi avançado em mais de 50 anos de trabalho florestal. Recuperar o impulso requer algo mais do que boas intenções: exige uma política pública clara, que restabeleça incentivos, promova a forestação com espécies nativas e exóticas conforme o caso, e ofereça certezas aos pequenos e médios proprietários.

Mas, acima de tudo, requer recuperar a segurança pública. Porque sem ordem nem Estado de Direito nos territórios, qualquer esforço será insuficiente.

O Chile tem a oportunidade — e a responsabilidade — de voltar a florestas. Não fazê-lo seria, simplesmente, renunciar ao futuro.

O editorial naRevista Acoforag


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