Pesquisadores detectaram que dentro da hermética zona localizada em Ercilla está se formando uma nova leva de jovens que exerce a criminalidade inspirada no que acontece na capital, com crimes que antes não ocorriam e com artistas urbanos como referências. Isso tem gerado diferenças com os comuneros antigos.

Houve dois fatos que despertaram a atenção de quem investiga crimes na Região de La Araucanía, especificamente no hermético setor de Temucuicui.

Era 2023 quando uma equipe de saúde chegou para prestar atendimento após o chamado de comuneros no que supunham ser visitas rotineiras. Mas a assistência terminou da pior forma. Um grupo de jovens comuneros assaltou os funcionários, roubando seus pertences, no que foi, segundo quem conheceu o fato, um episódio inédito. E não parou por aí.

Em 2025, diante de outro chamado, a história se repetiu com o mesmo assalto e a mesma gangue. “Isso antes não acontecia”, comentam fontes da zona, que afirmam que, embora seja um perímetro conflituoso, seus habitantes mantinham certos códigos de lealdade.

Trata-se de uma nova leva de jovens criminosos que está impulsionando uma mudança cultural dentro desta zona localizada na comuna de Ercilla. A reivindicação territorial e a defesa dos símbolos mapuches, segundo quem acompanha de perto o que ali ocorre, têm ficado de lado para dar espaço a novas modas criminosas.

Os assaltos ao pessoal de saúde, dizem as mesmas fontes, geraram mal-estar entre os comuneros mapuches mais antigos, porque acabavam afetando os mais velhos da comunidade. Mas essa nova geração não atendeu às reclamações.

Trata-se de uma inédita mudança cultural que os pesquisadores dessa zona detectaram. “Há uma nova leva de habitantes da comunidade, são jovens que têm entre 18 e 22 anos, e estão contaminados pela narcocultura e pelos cantores urbanos. Perderam sua identidade cultural, e a criminalidade que estão exercendo é praticamente a mesma que em Santiago”, diz uma fonte que está a par da zona.

Isso tem gerado diferenças dentro da comunidade, comentam quem conhece essa mudança cultural. De fato, esses jovens já não acatam as ordens das autoridades mapuches, os lonkos, como faziam seus ancestrais.

São jovens que não trabalham nem estudam e que estão dedicando sua vida a crimes como a venda de maconha, portonazos e encerronas nas zonas urbanas de comunas como Victoria, Ercilla e Collipulli. Sempre com armas e gravando-se com celulares para compartilhar entre eles.

Vestem-se com roupas largas, bonés, joias e se gravam dirigindo carros caros roubados, à moda das jovens gangues de criminosos que operam na Região Metropolitana. Como se seguissem uma espécie de manual, nessas andanças também participam suas jovens parceiras, que colaboram no ocultamento dos crimes.

Embora em 12 de outubro de 2025 tenha havido uma tentativa de queimar um caminhão que teria sido realizada por essa mesma gangue, ela não se concretizou. O que fizeram foi incendiar um carro roubado. Mas, segundo os pesquisadores, não foi um fato que representasse uma reivindicação com fins políticos, como costumava ser no passado.

A ruptura dentro da comunidade ficou refletida no fato de que, por exemplo, quando houve prisões e audiências de formalização, já não aparecem acompanhantes mapuches nos tribunais exigindo sua libertação.

A nova leva está operando por conta própria. “Os adultos já não têm controle”, dizem as mesmas fontes, que comentam que nem o werkén Jorge Huenchullan

-preso em maio- conseguia exercer autoridade sobre essa nova geração. “Não há nada de sua pertença cultural em sua atuação”, afirmam.

Uma zona complexa

São aproximadamente sete quilômetros de estrada de terra que separam Temucuicui da Rota 5 Sul. Justamente isso faz com que sua entrada não seja fácil, pois a estrada é ruim para a passagem de veículos e acaba alertando qualquer operação surpresa das polícias.

Dentro do local, protegido pela Lei Indígena, há seis lof que agrupam diferentes famílias. É em um desses lof onde mora Marcelo Catrillanca, o pai de Camilo Catrillanca.

Essas dificuldades de entrada são as que deram ao lugar uma fama de intransponível. O fato mais grave ocorreu em 7 de janeiro de 2021, quando o detetive Luis Alberto Morales Balcázar morreu baleado em uma operação massiva da PDI.

Não apenas os policiais foram vítimas de ataques. Em 15 de março de 2022, um grupo de desconhecidos atacou com disparos a comitiva da ex-ministra do Interior Izkia Siches.

Do Executivo, destacam que hoje a situação está mais controlada e que foram realizadas operações, o que antes não ocorria. No que vai do ano, ocorreram três operações, duas por investigações relacionadas a roubos de veículos e atentados incendiários, e uma pela prisão de Huenchullan.

No entanto, quem participa desses procedimentos diz que as operações de maio foram programadas em agosto de 2025 e, até agora, são números similares aos ocorridos em 2023 e 2024. A diferença não responde a uma mudança de mão no Executivo, afirmam. Apenas em 2025 foi realizada uma devido ao fato de não haver diligências pendentes.

Mas do Executivo defendem que hoje está mais tranquilo pela nova gestão. “Como governo, destacamos e felicitamos o Ministério Público junto às polícias pelos diversos procedimentos que desenvolveram e que tiveram resultados bem-sucedidos”, diz o delegado presidencial regional de La Araucanía, Francisco Ljubetic.

O prefeito inspector Juan Carlos Bustos, chefe nacional de Inteligência Policial da PDI, reconhece que Temucuicui constitui uma zona de “alto risco em termos de procedimentos policiais de entrada e registro, devido à grande resistência observada em procedimentos anteriores”. Isso, diz, “pela utilização de armas de grosso calibre” que ali se produz.

Apesar de tudo, o fiscal regional de La Araucanía, Roberto Garrido, afirma que não há lugar no país onde as autoridades não possam entrar: “As investigações em Temucuicui se mantiveram ativas e os procedimentos realizados durante o último tempo demonstram que não existem territórios onde a lei deixe de ser aplicada”.

Por último, Garrido ressalta que “é importante distinguir quem participa em atividades criminosas da grande maioria dos habitantes do setor, que não têm relação com esses crimes”.

Fonte:La Tercera


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