Um importante avanço em biomateriais para a saúde foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Concepción. A equipe projetou um hidrogel multiuso que não apenas protege as lesões e absorve fluidos, mas participa ativamente da cicatrização ao combinar suporte mecânico, capacidade antioxidante e condutividade elétrica natural.

Diferentemente dos curativos tradicionais que apenas cobrem a ferida, este desenvolvimento integra três componentes em uma única matriz: colágeno, que dá estrutura celular; óxido de grafeno reduzido, que confere condutividade elétrica; e taninos condensados de casca de pinho, um recurso abundante na indústria florestal do Biobío.

«A pele gera pequenos sinais elétricos naturais em direção à área lesionada. O adesivo não requer baterias, mas ajuda a manter e transmitir melhor esses sinais próprios do organismo», explicou Luisbel González Pérez de Medina, autor da pesquisa desenvolvida como parte de seu trabalho de doutorado na Faculdade de Engenharia.

Por sua vez, os taninos de pinho não apenas atuam como antioxidantes frente ao estresse celular, mas cumprem um papel estrutural chave. «Os taninos ajudam a unir e estabilizar os demais componentes do hidrogel, evitando que as partículas condutoras se separem da matriz de colágeno», detalhou González. Em laboratório, os testes mostraram que este design alcançou mais de 95% de fechamento em feridas simuladas em 48 horas.

A pesquisa esteve sob a orientação da acadêmica Katherina Fernández (Faculdade de Engenharia) junto a seus pares, Claudio Aguayo (Farmácia) e Jorge Toledo (Ciências Biológicas), em colaboração com as universidades de Sevilha e NOVA de Lisboa.

Regeneração de alta qualidade

O desenvolvimento foi avaliado em testes de biocompatibilidade e irritação cutânea (ISO) e posteriormente em um modelo suíno de ferida profunda, cuja pele apresenta características muito semelhantes às humanas.

Aos 21 dias de tratamento, tanto o adesivo comercial de controle quanto o hidrogel UdeC alcançaram o fechamento completo da lesão. No entanto, a diferença determinante esteve na arquitetura do tecido regenerado.

«A ausência de cicatriz visível foi observada em um modelo suíno e ainda não em seres humanos. Além disso, todos os grupos tratados, incluindo o curativo comercial, alcançaram o fechamento da ferida aos 21 dias. O mais notável foi a qualidade do tecido regenerado com nosso hidrogel: a pele apresentou uma superfície uniforme e, ao analisá-la ao microscópio, observou-se uma organização mais semelhante à pele saudável. Em contrapartida, o curativo comercial conseguiu fechar a ferida, mas o tecido interno permaneceu menos organizado e com maior presença de células inflamatórias», disse.

Destacou que «a principal diferença esteve em como a pele se regenerou: com o hidrogel observou-se uma derme mais organizada, uma epiderme completamente formada e uma menor presença de alterações inflamatórias». Ao microscópio, o tecido apresentou uma estrutura uniforme semelhante à pele saudável, sem a formação de cicatrizes desorganizadas.

Resposta às feridas crônicas

Do Laboratório de Biomateriais UdeC, Katherina Fernández explicou que a iniciativa nasce após constatar que no mercado não existiam curativos com múltiplas capacidades integradas.

«Há tempo desenvolvemos materiais de base biológica. A oferta tradicional não conta com propriedades aprimoradas; nosso objetivo era reunir diferentes funções em uma única aplicação e obtivemos resultados muito promissores», destacou a acadêmica.

Nessa linha, a professora orientadora enfatizou que o desenvolvimento busca responder a lesões crônicas, como úlceras por pé diabético ou escaras. «Essas feridas não cicatrizam porque seu ambiente bioquímico está desequilibrado. Há muitas pessoas afetadas por essas lesões que podem se tornar fatais; nosso objetivo é desenvolver soluções reais para elas», acrescentou.

O projeto encontra-se em uma etapa pré-clínica avançada. Para chegar aos centros de saúde, a equipe avançará na padronização da fabricação, validação de métodos de esterilização, determinação de vida útil e nos estudos regulatórios necessários antes de iniciar os primeiros testes clínicos em seres humanos.



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