O Canadá possui um dos patrimônios florestais mais extensos do planeta. Mais de 360 milhões de hectares de floresta sustentam uma indústria florestal que contribui com mais de 30 bilhões de dólares ao PIB nacional, captura carbono e preserva grande parte da biodiversidade do hemisfério norte. Esse patrimônio convive com uma ameaça que se agrava ano após ano. A cada temporada de incêndios, o fogo consome em média 2,8 milhões de hectares de floresta canadense, um número que em anos de condições extremas pode dobrar ou triplicar. E essas condições são cada vez mais frequentes. Em 2023, mais de 18 milhões de hectares queimaram em todo o território, pulverizando todos os recordes nacionais e regionais.
A temporada de 2024, embora menos catastrófica, somou outros 5,3 milhões de hectares, quase o dobro da média histórica, e 2025 já se configura como a segunda pior temporada registrada, com mais de 7,3 milhões de hectares consumidos pelo fogo. Quebec, no norte francófono, esteve entre as regiões mais atingidas.
Após um incêndio de alta intensidade, a floresta não volta a crescer de forma imediata. As condições do solo, a perda do banco de sementes e a extensão das áreas afetadas geralmente tornam a regeneração natural lenta, insuficiente ou diretamente impossível sem intervenção humana. Os métodos convencionais de restauração — plantio manual, semeadura aérea com aviões ou helicópteros — esbarram em obstáculos logísticos severos. Grande parte da superfície queimada está em zonas remotas ou de difícil acesso, onde mobilizar equipes de plantadores é caro e complexo. A janela de trabalho é curta e a mão de obra sazonal, cada vez mais escassa. Nesse gargalo, a FPInnovations busca inovar com novas estratégias de reflorestamento.
Uma semeadura que vem do ar
A FPInnovations é uma organização privada sem fins lucrativos dedicada à pesquisa e ao desenvolvimento aplicado ao setor florestal canadense, com laboratórios em Montreal e na cidade de Quebec. Sua tarefa é sustentar a competitividade da indústria da madeira por meio da inovação tecnológica. Nessa linha, lançou um programa de ensaios de campo para avaliar o potencial da semeadura aérea com drones como complemento aos métodos tradicionais de reflorestamento. O projeto conta com o financiamento do Ministério de Recursos Naturais e Florestas de Quebec (MRNF, pela sigla em francês), o órgão provincial responsável pela gestão do território florestal e pelas políticas de restauração das florestas públicas.
Durante a primavera boreal de 2026, a FPInnovations levou ao campo diferentes sistemas de drones para validar vários aspectos da abordagem, incluindo sua capacidade operacional real, a precisão das tecnologias de sensoriamento remoto para identificar os locais mais adequados para a semeadura e o desempenho de germinação de diferentes cápsulas e sementes.
A técnica substitui o trabalho manual de plantio por veículos aéreos não tripulados que dispersam as sementes sobre o solo queimado. Em vez de lançá-las soltas de altura, como acontece com a semeadura por helicópteros ou aviões, esse sistema utiliza cápsulas biodegradáveis que contêm a semente junto com água, nutrientes e, em alguns casos, fungos benéficos que melhoram as probabilidades de a planta prosperar nos solos empobrecidos deixados pelo fogo.
Os sistemas mais avançados empregam tecnologia RTK (Real-Time Kinematic) para melhorar a precisão na colocação das sementes e reduzir a sobreposição e o desperdício. Os protocolos convencionais de semeadura aérea distribuem as sementes de forma uniforme sobre toda a área a reflorestar, o que aumenta a demanda por sementes, já que boa parte acaba em locais onde as condições não favorecem a germinação. As linhas de pesquisa mais recentes apontam para uma semeadura de precisão, direcionada a microsítios específicos dentro do terreno queimado, capaz de reduzir o consumo de sementes por hectare e aumentar a taxa de estabelecimento.
Segundo estimativas do setor, a semeadura com drones pode reduzir os custos operacionais em até 80% em relação aos métodos manuais, embora esses números ainda dependam de variáveis como o tipo de terreno, a espécie arbórea e a taxa de sobrevivência efetiva das mudas.
O que se busca medir
Os ensaios realizados na primavera boreal de 2026 abrangem três dimensões de análise. A primeira é operacional: verificar se os sistemas de drones disponíveis no mercado têm a capacidade de voo, a autonomia e a estabilidade necessárias para operar em condições florestais reais, com vento variável, vegetação irregular e distâncias significativas dos pontos de carga.
A segunda dimensão envolve as tecnologias de sensoriamento remoto, ou seja, o uso de sensores remotos para identificar com precisão as zonas mais adequadas para a semeadura dentro de uma área queimada. Nem toda a superfície afetada por um incêndio tem as mesmas condições de solo, umidade e exposição solar, e direcionar a semeadura para os locais com maior probabilidade de germinação é determinante para a eficiência do método.
A terceira variável é a própria semente. O projeto avalia diferentes tipos de cápsulas e formulações para proteger a semente durante a dispersão aérea e melhorar seu contato com o solo. Uma semente lançada de altura sobre terreno irregular pode acabar sobre rocha, sob uma camada espessa de cinzas ou exposta a condições que impedem a germinação. As cápsulas buscam compensar essa aleatoriedade e aumentar a taxa de estabelecimento por unidade semeada.
O projeto se desenvolve em colaboração com parceiros governamentais, acadêmicos e industriais, cuja participação permite contrastar os resultados em diferentes condições ecológicas e regionais.
Próximos passos
A FPInnovations prevê divulgar os resultados preliminares do estudo no outono boreal de 2026. Esses primeiros dados permitirão avaliar o desempenho de germinação registrado nos ensaios de primavera, a precisão efetiva do sensoriamento remoto para selecionar locais e uma primeira estimativa de custos frente aos métodos convencionais.
Fonte:Bioeconomia
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