Nove meses após os incêndios florestais que afetaram Penco e o setor de Lirquén durante janeiro, o Fundo Coihueco começa a mostrar sinais de recuperação. Nas áreas atingidas pelo fogo, ervas e arbustos voltaram a crescer, enquanto diferentes árvores nativas começaram a rebrotar desde suas bases e copas.

No entanto, o processo ainda é lento. Por meio do monitoramento do setor, Pablo Fuentes, especialista em botânica, integrante do Sistema de Resposta para Fauna Silvestre (Sirfas) e da comissão de gestão ambiental do Parque para Penco, pôde observar que a vegetação anual já está estabelecida em diferentes pontos e que algumas espécies até começaram a florescer.

"Poucas semanas após o incêndio, diferentes espécies de ervas começaram a cobrir o solo erodido. Posteriormente, várias espécies de árvores começaram a rebrotar (desde a base e as copas)", explicou Fuentes.

Entre as espécies observadas estão litre, boldo, hualle, huillipatagua, pitao e queule. Estas últimas três espécies encontram-se sob categoria de ameaça.

Da mesma forma, os brotos de espécies exóticas e invasoras também se ativaram, como o eucalipto. Também a retamilla e a amora-preta, que deixam milhares de sementes no solo e requerem espaços abertos para germinar e se estabelecer.

Pablo Fuentes indicou que, em determinado momento, o solo estava invadido de pequenas plantas de retamilla. No entanto, as interações ecológicas mantiveram esse crescimento invasivo sob controle.

"Em relação à floresta nativa, embora muitas árvores tenham queimado, continuam em pé, algumas com abundantes rebrotos. Isso é muito relevante, já que as copas continuam gerando sombra e, portanto, evitam ou reduzem a probabilidade de que espécies exóticas possam invadir a floresta", contou Fuentes.

O especialista classificou isso como esperançoso, já que está começando a sucessão ecológica, um processo natural de recuperação dos ecossistemas que favorece a biodiversidade em geral, incluindo a fauna silvestre.

Mais de 50 espécies registradas

A recuperação também pôde ser observada na fauna. Joseline Veloso, médica veterinária especialista em manejo de fauna silvestre, comentou que, por meio de câmeras-armadilha e observações diretas, foram registradas mais de 50 espécies de vertebrados que continuam utilizando a área afetada pelo incêndio.

O registro considera 32 espécies de aves, 13 mamíferos, três répteis e três anfíbios. Entre os animais identificados estão o monito del monte de Pancho, rato oliváceo, degu do mato, gato güiña, raposa culpeo e pudu.

A especialista indicou que também foram observadas espécies como a rãzinha de folhiço, rãzinha manchada, lagartixa esbelta e lagartixa de Schröeder.

"Os registros até agora dão conta da presença de fauna nativa que continua ocupando a área sinistrada, principalmente associada a fragmentos remanescentes de vegetação não queimada, a qual poderia estar proporcionando refúgio e alimento", explicou Veloso.

Ambos os especialistas indicaram que a detecção precoce de espécies que se deslocam pouco, como anfíbios, répteis e pequenos mamíferos, é relevante. Isso porque levanta a possibilidade de que alguns indivíduos tenham conseguido sobreviver dentro da área afetada, em vez de terem chegado posteriormente de outros setores.

"Nos últimos meses conseguimos registrar espécies de maior mobilidade na área, como gato güiña e pudu, no entanto, esses registros ainda não permitem afirmar que exista um processo de recolonização", contaram Veloso e Fuentes.

Prevenção e proteção

Do Sirfas e do Parque para Penco destacaram a urgência de fortalecer as medidas de prevenção e proteção de zonas como o Fundo Coihueco, especialmente evitando novas fontes de incêndio e reduzindo a acumulação de material combustível em lugares estratégicos.

Também é fundamental manter e proteger os remanescentes verdes de vegetação nativa, que funcionam como refúgios e núcleos a partir dos quais pode continuar a recuperação da fauna silvestre e a propagação da flora nativa.

"Consideramos de especial preocupação as espécies com problemas de conservação e as especialistas de habitat, que necessitam de condições específicas no ambiente para viver, como cobertura vegetal, umidade ou temperatura, e que podem levar vários anos para se recuperar após um incêndio, como é o caso dos anfíbios", explicaram os especialistas.

Um exemplo que comentaram é o monito del monte de Pancho, que necessita de vegetação nativa que proporcione seu alimento durante os meses de verão, período em que ocorrem mais incêndios e no qual deve acumular reservas energéticas para hibernar.

Da mesma forma, o gavião-de-cauda-vermelha, ave de rapina florestal em Perigo segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que necessita de florestas maduras para nidificar e se reproduzir, e que foi registrada no Parque para Penco, o que desperta o interesse dos especialistas considerando os poucos casais reprodutivos reportados em nível mundial.

Fonte:Diario Concepción

Compartilhar: