Embora o Ministério da Energia garanta que atualmente não existe uma ruptura no estoque de pellet e que a capacidade de produção permitiria abastecer a demanda estimada para este inverno, a realidade enfrentada por consumidores e comerciantes em Chillán mostra um cenário diferente: longas filas, locais sem produto, fornecedores sem datas de reposição e preços que praticamente dobraram nos últimos meses.
O problema se tornou especialmente visível em pontos de venda como a Ecomas, na Avenida Argentina, onde compradores chegaram para garantir alguns sacos. Trata-se de um dos últimos locais que, pelo menos até a última sexta-feira, tinha pellet.
Um dos compradores é Víctor Valdebenito, que explicou que durante os primeiros meses do inverno não teve problemas porque havia se abastecido anteriormente, mas que atualmente enfrenta dificuldades para completar o combustível que precisará nas próximas semanas.
"Desde o início de agosto, dessa data consegui 10 sacos na Ecomas. Fiz longas filas, por exemplo, hoje cheguei às 7 da manhã na Ecomas, e quando eram 8h45, com uma fila de quase um quarteirão, nos disseram que o caminhão não chegaria hoje (ontem)", relatou ao La Discusión.
Valdebenito afirmou que também não receberam informações sobre quando o produto seria reposto. A situação, garantiu, até o levou a avaliar voltar a usar aquecimento a lenha.
"Estamos vendo voltar a nos instalar novamente com fogão de combustão lenta, porque com a lenha há em toda parte, ninguém tem problemas", manifestou.
De fato, a Ecomas esteve fechada durante grande parte do dia de ontem, aguardando estoque.
María Carrión, que durante o fim de semana tentou sem sucesso conseguir pellet para seu fogão, também disse estar avaliando voltar a colocar em sua casa um fogão a lenha. "Não é possível que o sistema de aquecimento que o próprio Governo incentivou os moradores de Chillán a trocar, hoje não tenha combustível. Creio que a solução será voltar à lenha", comentou.
A escassez também é confirmada pelo comércio local. Sergio Contreras, da Bullstore, negócio dedicado entre outros setores à comercialização de pellet, informou que começaram a enfrentar dificuldades com seus fornecedores há dois meses.
"Começamos a enfrentar problemas com a entrega de pellet a partir de junho. Já começamos a ver a escassez nas entregas de pellet. Dizem-me que não têm estoque disponível, também falharam algumas máquinas, principalmente que não há disponibilidade de matéria-prima, entre outras coisas", explicou.
Contreras garantiu que nos três anos em que comercializam pellet não haviam enfrentado uma situação semelhante. A isso se soma o forte aumento de preços.
"No verão nós o tivemos a $3.200, e a última carga que nos chegou já a tínhamos a $6.200", precisou, garantindo que esse carregamento chegou há aproximadamente duas semanas.
Ainda mais complexo é o panorama em relação a uma eventual normalização. "Eu não tenho nada claro, não temos data. Foi-nos indicado que tínhamos que voltar a consultar no mês de outubro", afirmou.
Embora seu negócio possa se sustentar com outros produtos, garantiu conhecer distribuidores dedicados exclusivamente ao pellet que atualmente se encontram "bastante complicados".
O que dizem as autoridades
A versão dos consumidores e comerciantes contrasta com o informado pelo seremi de Energia de Ñuble, Cristian Jaque. O grande problema é que a entidade só tem dados até 31 de julho, portanto a situação das últimas semanas não reflete em nada o panorama atual.
Em conferência de imprensa, inclusive foi indicado que, segundo informado pelas próprias empresas, precisamente até 31 de julho, existe disponibilidade e capacidade suficiente para enfrentar o consumo projetado no inverno. O certo é que não é a realidade que os compradores enfrentaram ontem.
"Atualmente não existe uma ruptura no estoque de pellet, mas efetivamente nos encontramos em uma situação de escassez", afirmou Jaque, explicando que o Ministério da Energia recebe a cada 15 dias informações sobre produção, estoque e projeções de venda.
"Esclarecer que atualmente o mercado do pellet é um mercado privado, ou seja, o Estado não pode definir quanto se produz, como se vende nem o preço. Algo que o Ministério da Energia sim pediu às diferentes empresas é informar sobre a situação de estoque para ter absolutamente monitorado o cenário e poder, por sua vez, informar à cidadania", sustentou a autoridade.
O seremi reconheceu, no entanto, que durante estes dias podem ter sido registradas comunas sem fornecimento devido a problemas logísticos e pediu às famílias que evitem compras excessivas.
"Queremos pedir às famílias calma. Enquanto as empresas continuarem produzindo e nós nos mantivermos abastecidos com o que realmente precisamos, vamos permitir que o mercado continue funcionando e não vamos contribuir para uma ruptura de estoque", expressou Jaque.
A autoridade também adiantou que será oficiado o Sernac para avaliar eventuais ações frente ao importante aumento do preço do pellet.
"Vamos oficiar o Sernac com o objetivo de ver quais podem ser as ações a tomar. Mas sem denúncia é difícil. Acreditamos que isso se deve ao fechamento das diferentes serrarias que sempre abasteceram de biomassa a região para produção de pellet", encerrou o seremi.
Foi o próprio governo, através do Plano de Descontaminação (PDA) de Chillán e Chillán Viejo, que incentivou a troca de aquecedores na intercomuna, de fogões a lenha para aquecedores a pellet.
Fonte:La Discusión
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