Uma auditoria interna do Ministério do Meio Ambiente, dirigido por Francisca Toledo, acabou abrindo uma frente complexa sobre um dos processos participativos mais relevantes da implementação do Serviço de Biodiversidade e Áreas Protegidas (SBAP).

Após vários meses de revisão administrativa, a pasta concluiu que o processo de consulta indígena realizado durante 2025 apresenta uma série de irregularidades que comprometem a integridade do expediente administrativo e que, na opinião da atual administração, impedem de comprovar corretamente como se desenvolveu e encerrou uma etapa obrigatória estabelecida na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.

A conclusão ficou registrada na Resolução Isenta N.º 04158, assinada em 27 de julho pela ministra do Meio Ambiente, Francisca Toledo, por meio da qual se inicia formalmente um procedimento destinado a invalidar tanto a Ata de Acordos e Desacordos assinada durante o Diálogo Nacional quanto a resolução que declarou concluído o processo de consulta indígena em 10 de março de 2026, apenas um dia antes do término do governo do Presidente Gabriel Boric.

A resolução constitui o resultado de um trabalho de revisão iniciado após a mudança de administração e que também incorporou antecedentes surgidos em razão do recurso de proteção apresentado pela Comunidade Atacamenha de Socaire perante a Corte de Apelações de Antofagasta, ação judicial que questionou precisamente a forma como a consulta indígena foi concluída.

Uma auditoria que reconstrói o processo

Segundo pôde apurar a Rádio Bío Bío a partir da resolução isenta, da minuta técnica elaborada pelo ministério e de antecedentes coletados por fontes que conhecem o desenvolvimento do processo, as observações não apontam apenas para o extravio de um documento.

A investigação administrativa reconstrói toda a sequência que terminou com o encerramento da consulta e conclui que existiram deficiências na rastreabilidade documental, atuações sem respaldo administrativo formal e um expediente que nunca conseguiu ser completado antes de a autoridade resolver dar por finalizado o procedimento.

Tudo isso ocorre em uma consulta indígena que era requisito para editar três regulamentos fundamentais para a implementação da Lei 21.600, que criou o Serviço de Biodiversidade e Áreas Protegidas: o Regulamento do Sistema Nacional de Áreas Protegidas, o Regulamento de Concessões e Permissões e o Regulamento de Sítios Prioritários.

Um diálogo nacional milionário

Os antecedentes revisados por este meio mostram que o processo completo de consulta indígena significou um gasto próximo a 1.200 milhões de pesos.

Somente o denominado Diálogo Nacional — realizado entre 18 e 20 de dezembro de 2025 na Região Metropolitana — demandou mais de 230 milhões de pesos, ocasião em que representantes indígenas provenientes de diferentes regiões deveriam alcançar acordos sobre quinze matérias relacionadas à futura regulamentação do SBAP.

Mas a atual administração sustenta que o custo econômico não terminou aí.

A minuta elaborada pelo Ministério indica que durante 2026 tiveram de ser quitadas faturas correspondentes ao processo realizado no ano anterior, em montante superior a 300 milhões de pesos, obrigações que haviam ficado pendentes de pagamento e foram transferidas da administração anterior.

Fontes conhecedoras do processo sustentam que a organização do diálogo nacional foi desenvolvida em prazos reduzidos e sob uma coordenação sediada diretamente no gabinete do então subsecretário do Meio Ambiente, Maximiliano Proaño, situação que — afirmam — alterou a estrutura habitual por meio da qual o ministério desenvolve esse tipo de consultas indígenas. Esse antecedente, no entanto, não aparece expressamente contido na resolução isenta, portanto cabe atribuí-lo unicamente a fontes conhecedoras do processo.

O documento que desapareceu

O principal achado da auditoria diz respeito à Ata de Acordos e Desacordos.

A resolução administrativa indica que, uma vez concluído o Diálogo Nacional, durante a madrugada de 21 de dezembro de 2025, representantes indígenas, a então ministra Maisa Rojas e o então subsecretário Maximiliano Proaño assinaram o documento que deveria deixar constância oficial dos acordos alcançados.

No entanto, a lista original de assinaturas nunca chegou ao expediente administrativo. A resolução sustenta expressamente que essa lista “não foi entregue pelo gabinete ministerial à coordenadora da atividade ao final da jornada, ocorrendo o extravio dela”.

Esse documento era precisamente o respaldo que comprovava quais representantes indígenas aprovaram a ata e quais não.

A reconstrução de assinaturas

Diante da perda do documento, durante janeiro de 2026 começou um processo destinado a reconstruir as assinaturas. Mas a própria investigação concluiu que esse procedimento nunca foi formalizado.

A resolução indica que não existe constância de atos administrativos nem instruções oficiais que ordenassem iniciar a reconstrução da lista extraviada. Apesar disso, o gabinete ministerial solicitou informalmente às Secretarias Regionais Ministeriais contatar novamente os representantes indígenas para pedir que assinassem novamente a ata.

O resultado esteve longe de reconstruir o expediente. Dos 101 representantes que compareceram à jornada final do diálogo, apenas 53 assinaturas foram recuperadas, das quais somente 50 correspondiam efetivamente a pessoas presentes naquele dia. Ou seja, 51 representantes nunca voltaram a assinar o documento.

Comunidades que nunca foram localizadas

A resolução inclusive detalha o que ocorreu com aqueles que não assinaram. Cinco representantes jamais foram contatados. Vinte e quatro não responderam às gestões realizadas pelas autoridades regionais.

Doze manifestaram verbalmente que não voltariam a assinar e sete enviaram cartas expressando a mesma decisão. Outros três enviaram e-mails manifestando sua aprovação do conteúdo da ata.

Finalmente, o próprio ministério concluiu que, em relação a 29 representantes, não existe nenhum antecedente que permita estabelecer se aprovaram ou rejeitaram a Ata de Acordos e Desacordos, situação que, segundo a resolução, descumpre diretamente as obrigações estabelecidas no Regulamento de Consulta Indígena.

O encerramento igualmente ocorreu

Apesar de todo esse cenário, o Ministério do Meio Ambiente editou em 10 de março de 2026, ou seja, um dia antes de entregar o poder ao governo de José Antonio Kast, a resolução que deu por encerrado o processo de consulta indígena.

A atual administração sustenta que essa decisão foi adotada quando o expediente ainda apresentava inconsistências relevantes e sem que existissem todos os antecedentes exigidos pela normativa.

Por isso, a resolução conclui que a Ata de Acordos e Desacordos foi emitida “sem cumprir os requisitos essenciais” previstos no Regulamento de Consulta Indígena e acrescenta que esses vícios se projetam sobre a resolução que declarou encerrado o processo.

O que vem agora

A Resolução Isenta N.º 04158 não invalida imediatamente os atos administrativos.

O que ela faz é iniciar formalmente esse procedimento, conforme o artigo 53 da Lei 19.880, convocando representantes de comunidades indígenas e todos aqueles que possam ser afetados para participarem de audiências públicas — presenciais e telemáticas — durante setembro e apresentarem observações antes de o Ministério adotar uma decisão definitiva.

Fonte:BiobioChile

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