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A psicóloga e acadêmica da Universidad Mayor, Alicia Cruzat, explicou ao The Clinic que "veremos que, se deixarmos uma criança no meio da floresta, ela ativará sua vontade de correr, explorar e subir em árvores sem que eu tenha dado instruções para isso. Isso ativará centenas de aprendizados sobre si mesma. Ela estará aprendendo sobre seu corpo e suas habilidades de ajuste motor com seu entorno. Exercitará suas habilidades motoras grossas e finas, e seu cérebro se encherá de novas conexões a serviço de seu crescimento cognitivo e emocional. Ativará também suas habilidades de contemplação, observação e exploração, tão diminuídas nas novas gerações, e chaves para a aquisição de qualquer tipo de aprendizado".
"Sair para caminhar no morro ou no campo ativa circuitos associados ao prazer e à calma. O mundo natural ativa um corpo menos ansioso e mais contemplativo. Temos um design corporal e cerebral que desfruta do contato com a natureza", acrescenta.
Nesse sentido, a também terapeuta familiar afirma que "existe evidência abundante que demonstra como alguns minutos em uma floresta ativam em nossa biologia estados de maior calma e menos ansiedade. Há até experiências em que expor pacientes hospitalizados a jardins e áreas verdes acelera sua recuperação e experiência de saúde".
Saindo das salas de aula
O Colégio Nido de Águilas implementou um modelo de aprendizagem, na etapa pré-escolar, que consiste em integrar a natureza como eixo central na educação de crianças. Do estabelecimento, garantem que desde o início da iniciativa foram observados "benefícios notórios, entre eles, o desenvolvimento de habilidades de resolução de conflitos, maior trabalho em equipe, diminuição dos níveis de absenteísmo por doença e aumento do entusiasmo".
Na prática, essa abordagem transforma o ambiente natural em uma extensão da sala de aula. Tudo, por meio de experiências sistemáticas de aprendizagem ao ar livre e da incorporação de elementos da natureza, onde os estudantes observam, exploram, fazem perguntas e enfrentam desafios reais, guiados por educadoras com formação em outdoor learning. Ao estar integrado ao currículo, não só promove a aprendizagem experiencial, mas também fortalece habilidades-chave como autonomia, pensamento crítico, autorregulação e trabalho colaborativo, em um contexto em que o vínculo com a natureza se torna parte essencial de seu processo formativo.
Carolina Correa, diretora do ciclo pré-escolar e educadora em Aprendizagem ao Ar Livre, afirmou que "não se trata de ampliar as atividades extracurriculares ou levar as crianças ao morro uma vez por semana. Vemos a natureza como parte essencial da aprendizagem e ampliamos o que entendemos por sala de aula para formar pessoas críticas, criativas e conscientes de seu entorno".
"A mudança foi impressionante. Vimos crianças com medo de correr ou pular se transformarem em pequenos aventureiros. O que mais nos dizem depois das atividades em campo é que se sentem 'calmas', algo que se projeta depois na sala de aula e em suas casas, já que seus pais também notam. Isso é extremamente valioso em um mundo de tecnologia e estímulos constantes", ressalta Correa.
A selva valdiviana
O colégio Claude Gay de Osorno também adicionou a natureza ao seu modo de aprendizagem, a tal ponto que no mês passado criou seu primeiro bosque de bolso Miyawaki. Em seu site, o estabelecimento explicou que se trata de uma iniciativa que "busca promover a biodiversidade, fortalecer a educação ambiental e gerar novos espaços de aprendizagem ao ar livre mediante o plantio de espécies nativas da Selva Valdiviana".
Trata-se de pequenas áreas de vegetação urbana criadas mediante um método de reflorestamento desenvolvido pelo botânico japonês Akira Miyawaki. A técnica consiste em plantar espécies nativas de alta diversidade e em grande densidade para acelerar o desenvolvimento de uma floresta semelhante aos ecossistemas naturais. Esses espaços, que podem ser instalados em terrenos reduzidos, buscam aumentar a biodiversidade, capturar carbono, mitigar as ilhas de calor e melhorar a qualidade ambiental das cidades.
A essa iniciativa somam-se as recentes instalações de bosques de bolso. Um exemplo disso é o lançado pela Pontificia Universidad Católica em seu Campus San Joaquín. Tudo com o objetivo de que, tanto estudantes quanto visitantes, reduzam seus níveis de estresse conectando-se com a natureza e dando-se uma pausa calma em meio a todo o estresse que significa viver na região Metropolitana.
De florestas nativas e brotos
Brotario é uma organização sem fins lucrativos que trabalha com escolas rurais para aproximar as crianças da flora e fauna nativas. Sua fundadora, Sofía Schmidt, explicou ao The Clinic que primeiro começaram com um programa chamado Jardim Nativo e, por coisas da vida, ela veio morar em Puerto Varas e assim começou a trabalhar com as escolas rurais da região.
"Parecia-nos que havia uma grande oportunidade de trabalhar pedagogicamente em torno das paisagens e da flora nativa, de modo a longo prazo, criar essa consciência e essa cultura de querer cuidar do que nos rodeia", comenta Schmidt.
Sobre o porquê de criar a Brotario, ela ressalta que "nos pareceu que o direito de poder acessar a natureza constantemente desde a educação formal era muito positivo e muito benéfico. Então, nosso propósito é que, tomara, todas as escolas públicas do país possam ter a oportunidade de ter a experiência significativa na natureza e com a flora nativa, que é parte da nossa natureza".
"Ainda não trabalhamos com colégios grandes, só com rurais. Temos escolas rurais que o adicionaram ao seu projeto educativo. O contato com a natureza e o projeto Jardim Nativo é parte da identidade da escola. Então, é um espaço bem significativo no ano, como se tivessem esse projeto que determinou, por exemplo, que tenham um certificado de meio ambiente", destaca.
Também ofereceram uma assessoria à Fundação Cosmos, que administra o banhado do rio Maipo. "Eles estão cuidando desse espaço há vários anos e recentemente estavam desenvolvendo o levantamento da flora nativa que está ao redor do banhado". No fundo, eles queriam ser mais do que o passeio de turma e se tornar uma experiência educativa para os estudantes.
"Pediriam que desenhássemos uma atividade que pudesse vincular o currículo escolar para que as visitas fossem intencionadas. Então, desenhamos uma atividade que tinha uma preparação em sala de aula, depois a visita em si e, em seguida, um encerramento em sala também. Poder entender que a planta, por exemplo, tem certo fruto que o pássaro pode comer, ou observar o bico do pássaro, que é de certa maneira que lhe permite comer tal fruto", indicou.
"É nosso propósito a longo prazo poder gerar incidência nas políticas de educação em que a natureza desempenha um papel tão importante, tão benéfico, tão determinante também para a vida das pessoas, que nos parece que ter. Assim como temos educação cívica ou educação sexual, em certos períodos da educação deveria haver o incentivo de sair para a natureza. De poder se conectar com seu território. Claramente é muito mais significativa, com certeza, ou memorável ou duradoura a lembrança de ter ido ao morro, certo, mas isso talvez não aconteça tanto. Queremos que nosso propósito, talvez a médio prazo, possa incidir nessa política pública", reflete.
Fonte: The Clinic
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