Os desastres socionaturais não terminam onde ocorre o dano físico. Seus efeitos podem se propagar através das cadeias produtivas, afetar o emprego, o abastecimento e a produção de outros setores e gerar impactos econômicos significativamente maiores do que as perdas iniciais. Esta foi uma das principais conclusões do seminário 'Impactos econômicos dos desastres em setores produtivos: aprendizados do setor florestal', organizado pelo Instituto para a Resiliência ante Desastres (Itrend) e pela Universidade de Concepción, com o apoio do Programa de Desenvolvimento Produtivo Sustentável do Ministério da Economia.

A atividade reuniu representantes do setor público, da academia, empresas e associações vinculadas à atividade florestal, com o objetivo de compartilhar os resultados do estudo desenvolvido pelo Itrend e analisar, a partir da experiência da indústria, as oportunidades para fortalecer a prevenção e a resiliência de um dos setores produtivos estratégicos do país.

O estudo foi financiado pelo programa de Desenvolvimento Produtivo Sustentável e utilizou modelos de risco e de propagação econômica para estimar tanto as perdas diretas quanto os efeitos que um desastre pode gerar sobre outros setores.

Segundo as últimas estimativas do estudo realizado pelo Itrend, a região de Biobío sofre, em média, uma perda anual direta de $49 bilhões de pesos devido a incêndios florestais.

Os resultados mostram que esta perda direta impacta outros setores da economia, em decorrência dos encadeamentos produtivos, chegando a gerar ao ano uma perda média total de $77 bilhões de produção bruta em nível nacional, implicando um fator de amplificação de 1,6.

Para Catalina Fortuño Jara, diretora executiva do Itrend, um dos principais aprendizados do projeto é que a gestão do risco deve deixar de ser abordada de maneira isolada e começar a ser incorporada como uma dimensão estratégica das decisões econômicas e produtivas tanto por parte do Estado quanto da Indústria.

"Os desastres não são apenas uma emergência que devemos atender quando ocorre. Também são um risco econômico que devemos ser capazes de antecipar, medir e gerenciar. Precisamos avançar rumo a capacidades permanentes que permitam que o Estado possa tomar decisões informadas pelo risco e que os setores produtivos possam incorporar esta informação em suas decisões de investimento, financiamento, seguro e operação", afirmou Fortuño.

A construção dos modelos exigiu informações sobre o valor exposto e as características da atividade produtiva, complementando fontes públicas com dados fornecidos por empresas do setor. Este processo contemplou mesas estratégicas e reuniões técnicas com a Forestal Arauco, Empresas CMPC e a Corporação Chilena da Madeira (CORMA).

Os dois primeiros apresentaram sua experiência em matéria de prevenção e proteção contra incêndios florestais, por meio das exposições de seus representantes. Posteriormente, abriu-se um espaço de discussão com representantes da academia, da CORMA, de pequenas e médias empresas e da secretaria regional ministerial de Economia de Biobío.

O setor florestal constitui um caso especialmente relevante por seu alto nível de encadeamento produtivo. A atividade representa cerca de 1,6% do PIB e gera mais de 100 mil empregos diretos, enquanto sua cadeia conecta a produção primária, o processamento industrial e a comercialização de produtos, vinculando-se ainda a outros setores da economia.

Da Universidade de Concepción, a vice-reitora de Pesquisa e Desenvolvimento, Claudia Ulloa Tesser, valorizou que a pesquisa aplicada possa se transformar em ferramentas para abordar desafios concretos do país.

"A geração de conhecimento adquire todo o seu valor quando somos capazes de conectá-la às necessidades reais do território e dos setores produtivos. Este projeto demonstra que a colaboração entre universidade, Estado e indústria permite produzir evidências que podem contribuir diretamente para melhorar as decisões e fortalecer nossas capacidades frente aos desastres", afirmou.

Para Gonzalo Villanueva González, chefe da Divisão de Desenvolvimento Produtivo Sustentável do Ministério da Economia, avançar na resiliência produtiva requer incorporar o risco como parte das decisões de desenvolvimento. "A pergunta que nos interessa abordar não é somente quanto pode perder um setor produtivo frente ao desastre, mas também o que podemos fazer para diminuir estas perdas, onde devemos priorizar investimentos, quais tecnologias ou capacidades precisamos desenvolver, como podemos melhorar o planejamento territorial e, em definitivo, como fazemos para que nossas atividades produtivas estejam mais preparadas e sejam mais resilientes", sustentou Villanueva.

O estudo realizado pelo Instituto começou em 2025 para avaliar o impacto de sismos, inundações e incêndios no setor produtivo florestal nas regiões de Maule e Biobío. Em fevereiro de 2026, o projeto foi renovado por mais um ano, aumentando sua cobertura tanto em análise quanto em resultados esperados. Junto ao setor florestal, foi solicitado avaliar o risco e o impacto econômico do setor vitivinícola. A expansão também considera a incorporação de duas novas regiões, O'Higgins e Ñuble, e uma quarta ameaça de temperaturas extremas.

Juntamente com a análise de risco e impacto econômico, o trabalho tem por objetivo entregar recomendações de política pública que permitam ao Estado tomar decisões informadas em matéria de risco de desastres, realizar uma avaliação de custo-benefício de medidas para a redução do risco de desastres. Os resultados finais, juntamente com as recomendações, serão divulgados no início de 2027 no site do Itrend.

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