Por Ignacio Vera Izquierdo, diretor-geral da Forestal Santa Blanca

O aumento de vegetação fina e sub-bosque no centro e centro-sul do Chile, produto das condições climáticas recentes, gerou um cenário de alto risco. Ao secar com a chegada da primavera e do verão, essa biomassa se transforma em um combustível que pode detonar emergências de grande magnitude. Nesse contexto, a prevenção torna-se um dever inescapável para a indústria, especialmente para as PMEs florestais, que devem antecipar-se com um manejo adequado da vegetação em suas propriedades.

A necessidade de reforçar medidas preventivas voltou ao centro do debate parlamentar. A Comissão de Agricultura do Senado e a Comissão Mista que discute a nova Lei de Incêndios Florestais avançam na definição de exigências e responsabilidades dos proprietários, com um consenso transversal entre parlamentares, o Ministério da Agricultura, a Conaf e a Corma sobre a urgência de coordenar esforços públicos e privados. No entanto, enquanto o Congresso estabelece o marco regulatório, o verdadeiro desafio para os médios e pequenos produtores está na gestão técnica em campo: executar podas, manejar resíduos, reduzir a continuidade do combustível para impedir que um fogo superficial alcance as copas, além de manter aceiros e pontos de água em áreas críticas.

Alcançar padrões preventivos de alto nível supõe um esforço financeiro e operacional proporcionalmente maior para as PMEs em comparação com os grandes atores da indústria. Enquanto conglomerados como CMPC e Arauco desdobram investimentos milionários em infraestrutura, monitoramento com drones e limpeza perimetral, a pequena e média propriedade deve enfrentar exigências similares com recursos muito mais limitados.

A essa lacuna estrutural soma-se uma transformação profunda na propriedade das florestas no Chile. O processo de monetização de ativos florestais por parte das grandes empresas abriu espaço para fundos de investimento institucionais, que já administram cerca de 230 mil hectares, equivalentes a 10% das plantações do país. Esse esquema introduz um dilema não resolvido que transcende a mera posse do solo: a crescente separação entre o dono da terra, o titular das árvores, o administrador do fundo e a empresa que processa a madeira gera questionamentos sobre quem deve assumir e financiar as medidas permanentes de mitigação de incêndios.

Nesse novo cenário, a regulação não pode limitar-se a impor mais obrigações legais. A sustentabilidade do setor dependerá de como os pequenos e médios proprietários conseguirem financiar e implementar as medidas exigidas. O acesso a instrumentos de fomento, a assistência técnica especializada e o impulso de modelos associativos serão fundamentais para fechar a lacuna em relação às grandes corporações. Com uma temporada marcada por maior carga de combustível vegetal e um marco normativo em redefinição, a verdadeira blindagem das PMEs florestais estará em sua capacidade de antecipar-se com disciplina silvícola, antes que o fogo transforme a prevenção em tragédia.


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