O Chile arrasta um déficit habitacional que beira as 700 mil moradias, segundo cifras que o setor da construção tem manejado. Nesse cenário, a madeira —material que abunda em um país que se define a si mesmo como florestal— volta a se instalar como uma alternativa capaz de acelerar a construção sem renunciar à qualidade, além de contribuir diretamente para a meta de carbono neutralidade para 2050.

Segundo explica a El Desconcierto Felipe Victorero Castaño, pesquisador associado do Centro Nacional de Excelência para a Indústria da Madeira (CENAMAD) e subdiretor de Transferência do Centro UC de Inovação em Madeira (CIM UC), "em termos de pegada de carbono, a madeira não tem rival dentro da construção".

O motivo é que a árvore armazena, durante seu crescimento, o carbono que depois fica fixado nos produtos de construção: para cada dois quilos de madeira há um quilo de carbono retido, equivalente a 3,67 quilos de CO2 capturados da atmosfera.

Essa propriedade contrasta com processos mais intensivos em combustíveis fósseis, como a fabricação de cimento para o concreto armado ou a produção de aço. Além disso, Victorero lembra que 50% da redução de emissões que o Chile precisa depende de setores como a eletromobilidade ou as energias renováveis, enquanto os outros 50% devem ser compensados capturando CO2 através do setor florestal.

Hoje 10% das emissões do país já são compensadas com produtos de madeira colhida, uma porcentagem que, segundo o pesquisador, poderia crescer com vistas a 2050.

A contribuição da madeira para resolver o déficit habitacional

O país exige os mesmos padrões térmicos, acústicos e de resistência sísmica de qualquer material, e a madeira os cumpre. "As estruturas de madeira bem construídas rendem igual ou melhor que qualquer outro material", afirma Victorero, que destaca sua menor condutividade térmica e sua flexibilidade frente aos sismos.

A essas vantagens técnicas soma-se um fator econômico central: a madeira é um produto local. "Não estamos importando aço da Ásia nem combustíveis fósseis para produzir cimento", assinala o pesquisador, enquanto a floresta chilena permite reunir em poucas semanas todo o material necessário para levantar moradias.

Essa lógica de produção local é também a que explica o modelo da E2E, empresa nascida em 2018 como sociedade entre a Arauco e a belga Etex —dona no Chile da Pizarreño e Romeral—, e que desde março de 2023 pertence 100% à Arauco.

Seu gerente-geral, Felipe Montes, menciona a este meio que "podemos melhorar a habitabilidade das pessoas através de uma construção mais sustentável, de melhor qualidade e com melhor comportamento técnico". A companhia abastece principalmente dois segmentos: moradias sociais certificadas pelo ITEC e pelo Minvu, e projetos imobiliários privados de maior padrão.

Diferenças de custos e transporte frente ao concreto e ao aço

Um dos argumentos mais repetidos pela indústria é a eficiência logística. Segundo Montes, "se transportam várias casas em um só caminhão", enquanto a construção tradicional requer veículos separados para o concreto, o aço e as placas de gesso acartonado.

Essa redução de viagens diminui emissões, ruído e incômodos para os vizinhos, além de encurtar os tempos de montagem: os painéis chegam pré-fabricados e uma moradia pode ficar com sua estrutura bruta pronta em um dia e meio.

Como essa transição afeta as PMEs madeireiras?

Cerca da metade do setor florestal chileno é composto por pequenas e médias empresas voltadas ao mercado local, especialmente em regiões como o Maule e a Araucanía. Victorero explica que essas PMEs enfrentam o desafio de avançar rumo a produtos de maior valor agregado, além da madeira serrada.

Para isso, entidades como a CORMA, governos regionais e fundos da Corfo têm impulsionado processos de reconversão, além de exigências recentes como a rotulagem da madeira. A plataforma Diseña Madera reúne hoje relatórios e guias disponíveis para o setor.

Nessa mesma linha trabalha o Centro Tecnológico para a Inovação na Construção (CTEC), através de iniciativas como Impulso Pyme 4.0 no Biobío, onde empresas de madeira, metalmecânica e construção fortalecem capacidades para produzir soluções habitacionais industrializadas.

A indústria madeireira é mais sustentável que outros materiais?

A expansão da construção em madeira reabre, no entanto, um debate sobre o impacto ambiental da indústria florestal. Victorero é enfático: "todo material de construção, e toda atividade humana, tem um impacto", e lembra que a extração de áridos para o concreto ou de minério de ferro para o aço também gera danos em distintos ecossistemas do mundo.

Nesse contexto, o Chile figura entre os países com melhor desempenho em manejo florestal: 70% de suas plantações conta com certificação de manejo sustentável, cifra superior aos 60% que exibem países nórdicos como Finlândia, Noruega ou Suécia. Mais de 99% da madeira que o país produz —mais de 40 milhões de metros cúbicos de toras por ano— provém de plantações e não de floresta nativa, que com 15 milhões de hectares não é utilizada hoje para fins produtivos.

Não obstante, Victorero reconhece que nenhum material garante automaticamente menores emissões. Uma construção em madeira mal executada, com infiltrações de ar ou proveniente de fontes sem manejo sustentável, pode perder boa parte de seus benefícios.

É nesse ponto que a diretora executiva da CTEC, Carolina Briones, propõe uma mudança de enfoque: "a pergunta correta é qual sistema construtivo gera o melhor desempenho ambiental, produtivo e econômico para cada projeto".

Como exemplo cita o ECOIMAD, um edifício de moradia social de três andares com estrutura 100% em madeira desenvolvido junto à Canada House no marco do Construye Zero, cuja montagem estrutural foi concluída em oito horas.

Lacunas normativas pendentes

O Chile atualizou recentemente a norma NCh 1198 e incorporou novas exigências sobre preservação da madeira e quantificação do carbono biogênico. No entanto, Victorero identifica na fiscalização do cumprimento normativo —mais que no material em si— o principal obstáculo atual, junto com o desafio de escalar para edificação em madeira maciça de média altura, um segmento onde o risco financeiro segue freando os primeiros investidores.

Briones concorda que persiste uma lacuna entre percepção e evidência, sobretudo a respeito do comportamento frente ao fogo. Em elementos de madeira maciça como o CLT, a superfície se carboniza a uma velocidade previsível, o que permite projetar estruturas que mantêm capacidade resistente durante um tempo determinado de exposição ao fogo, um comportamento distinto mas não necessariamente inferior ao do aço, que perde resistência rapidamente sem proteção.

BIM e pilotagem industrial

Tanto a CTEC como o CENAMAD apostam na digitalização do processo construtivo. Briones detalha que ferramentas como o BIM permitem coordenar com antecedência o design, a fabricação e a montagem, enquanto o Parque de Inovação CTEC, em Laguna Carén, funciona como um laboratório em escala real onde empresas testam soluções em madeira, concreto e outras materialidades antes de escalá-las, incorporando sensorização, IoT e gêmeos digitais.

Com vistas a 2050, tanto Victorero como Briones concordam que a carbono neutralidade não será alcançada apenas trocando um material por outro, mas transformando integralmente a maneira de projetar, produzir e construir. Nessa rota, a madeira aparece como um dos recursos com maior potencial para que o Chile enfrente ao mesmo tempo sua crise habitacional e seus compromissos climáticos.

Fonte:El Dínamo


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