Como uma "tempestade perfeita" descrevem na indústria florestal, especialmente nas pequenas e médias empresas, o novo cenário tarifário nos Estados Unidos, que vigorará a partir da próxima semana. Aquele país anunciou uma sobretaxa de 10% para as importações de madeira macia e serrada a partir de 14 de outubro, juntamente com uma tarifa de 25% para manufaturas elaboradas com madeira.
Ao mesmo tempo, a partir de janeiro de 2026, essas taxas aumentariam para 30% e 50%, respectivamente, desde que não seja alcançado um acordo diferente no âmbito das negociações que o governo estadunidense mantém abertas com países como o Chile.
Os EUA são o segundo destino — depois da China — para as exportações florestais chilenas. Ao mesmo tempo, o Chile tornou-se o maior fornecedor de painéis de madeira compensada de coníferas do país norte-americano em 2023 e 2024, segundo dados da Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos, publicados pelo Instituto Florestal (Infor).
Menor demanda e efeito nas PMEs
"Isto é uma má notícia para o setor, especialmente para as PMEs, que estão com zero grau de reação, quando estamos numa situação de falta de madeira e escassez de demanda", comentou ontem Rodrigo O'Ryan, presidente da Corporação Chilena da Madeira (Corma), após a inauguração da Semana da Madeira.
Charles Kimber, gerente de Pessoas e Sustentabilidade da Arauco, concordou em afirmar que "isto afeta a competitividade de um setor que tem sido atingido por incêndios, roubo de madeira e custos mais altos de operação no Chile. Sem dúvida, os mais afetados serão as pequenas e médias empresas, porque as companhias grandes temos investimentos também em outros países e diversificação de produtos que nos atenuam um pouco isto".
Um dos impactos que já advertem no ramo é certa pausa na atividade comercial dos "agentes econômicos" nos EUA, admitiu Kimber. "Temos visto um decréscimo nas ordens e se não há boa demanda, sem dúvida vai afetar", afirmou.
O anterior, de qualquer modo, ocorre após os inventários madeireiros nos Estados Unidos terem subido, antecipando-se aos aumentos das tarifas.
Kimber assinalou que a produção madeireira da Arauco nos Estados Unidos é complementar à que realizam no Chile para abastecer o mercado norte-americano.
Uma visão do segmento mais afetado, as PMEs florestais, foi dada por Víctor Sandoval, presidente do sindicato PymeMad Biobío, que representa cerca de 100 empresas. Afirmou que levam seis meses enfrentando um ambiente de incerteza pelo cenário tarifário nos Estados Unidos. "Isso tem significado que as empresas pequenas, que não dispõem de respaldos financeiros importantes, hoje estejam num estado crítico com vários fechamentos, perdas de empregos de importância, sobretudo na zona do Maule, Ñuble e Biobío, na macrozona sul em geral". Assinalou que se perderam cerca de 3.000 postos de trabalho.
A Arauco, por sua vez, assegurou que seu projeto de celulose no Brasil não é afetado pela situação tarifária entre EUA e Brasil.
Competição com o Brasil em madeira serrada
Ao mesmo tempo, no ramo florestal explicam que os Estados Unidos impuseram uma tarifa de 50% à madeira serrada do Brasil, pelo que essa nação sul-americana sairá à procura de mercados alternativos no resto do mundo, onde também competem os produtos chilenos.
"O Brasil, que tem uma indústria da madeira forte, já não tem como principal mercado os Estados Unidos, mas tem que buscar outras alternativas", comentou Sandoval.
Igualmente, há outro impacto negativo para as PMEs chilenas. Kimber explicou que estas firmas exportam para países como China, Vietnã e em geral para o Sudeste Asiático, onde a madeira chilena que chega é utilizada para fazer móveis e assim é reexportada para os Estados Unidos. No entanto, agora gera-se um ruído para esses envios, já que se encarecem, devido a que as tarifas no país norte-americano para esses mercados asiáticos vão de 25% a 50%, acrescentou.
A construção continua fraca no Chile
Víctor Sandoval assegurou que a situação atual para o setor é uma "tempestade perfeita". Isto, porque ao cenário internacional, com alta de tarifas, soma-se que o mercado da construção no Chile continua fraco e não registra uma demanda que impulsione a indústria florestal.
Neste contexto, Rodrigo O'Ryan manifestou a relevância de gerar um incremento na demanda de madeira para a construção, "que o Estado se transforme num comprador importante, por exemplo, através da habitação social e da edificação de infraestrutura pública à base de madeira. Hoje temos madeira de alta resistência, podemos começar a construir obras públicas de grande envergadura".
O timoneiro da Corma acrescentou que é importante "esse tipo de medidas que alavanquem ou nos criem uma base para que as PMEs possam investir e escalar em tecnologia. E o mesmo também que se produzam mecanismos de, por exemplo, créditos brandos para capital de giro, para que as pequenas e médias empresas possam solventar esta crise".
Trabalho com a Chancelaria
A situação da indústria florestal está sendo analisada pelo Governo através do Ministério das Relações Exteriores, confirmaram no Executivo e nas empresas.
A ministra da Agricultura, Ignacia Fernández, comentou que "ontem (quarta-feira) houve uma mesa de trabalho liderada pela Chancelaria, onde participaram o Ministério da Agricultura e todo o setor florestal. É o mesmo tipo de trabalho que continuamos fazendo a propósito dos primeiros anúncios de tarifas com a indústria agrícola, quando não havia impacto sobre o setor madeireiro. Hoje é justamente isso o que se está trabalhando nesta mesa".
Rodrigo O'Ryan registrou que as autoridades lhes têm assinalado que "o Chile está bem posicionado, porque é um país credível e no setor da madeira tem dado as garantias de ser sustentável, de legalidade e de qualidade". Acrescentou que estão conversando com os clientes nos EUA para que "nos apoiem em mostrar que os produtos que oferecemos são únicos, portanto, não estamos competindo com um local".
Fonte:El Mercurio
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