Secas prolongadas, fragmentação da paisagem e pressão sobre os ecossistemas fazem parte do cenário ambiental enfrentado pela Região. A isso soma-se a recente catástrofe provocada pelos incêndios florestais que afetaram setores de Penco e Lirquén, evidenciando a alta vulnerabilidade do território frente a eventos extremos. Neste contexto, a restauração consolida-se como uma ferramenta chave para recuperar funções ecossistêmicas e aumentar a resiliência das paisagens.
Durante o mês de fevereiro, começaram os trabalhos em cinco hectares do terreno universitário da Universidade de Concepción. Trata-se de serviços de preparação do local e trabalhos de limpeza, que fazem parte de um processo de restauração ecológica impulsionado pelo Campus Natureza UdeC.
À primeira vista, essas intervenções podem gerar dúvidas. No entanto, não correspondem a ações isoladas nem a um uso extrativo do terreno. Constituem a primeira etapa de um processo planejado e de longo prazo, orientado a recuperar atributos ecológicos e funções chave do sistema intervencionado.
A restauração ecológica adquiriu especial relevância em um cenário marcado pela degradação dos ecossistemas, pela perda de biodiversidade e pelos efeitos das mudanças climáticas, particularmente em zonas urbanas e periurbanas como o Grande Concepción.
Preparar o terreno
O processo que se inicia na Universidade de Concepción corresponde a uma primeira etapa que abrangerá cinco hectares do terreno. A intervenção será desenvolvida sob os Padrões Internacionais para a Prática da Restauração Ecológica da Society for Ecological Restoration (SER), que estabelecem uma sequência de trabalho baseada em diagnóstico, manejo inicial, recuperação progressiva e monitoramento.
Neste contexto, os trabalhos de preparação do local e limpeza cumprem um papel chave, pois permitem reduzir pressões existentes, remover elementos que dificultam a recuperação ecológica e gerar condições adequadas para as etapas posteriores do processo.
O Diretor do Campus Natureza UdeC, Cristian Echeverría Leal, conta com uma trajetória de mais de uma década em restauração ecológica. Há 14 anos, tem liderado e executado projetos deste tipo nos ensaios de restauração do Parque Nacional Nonguén, experiência que hoje é transferida para o contexto universitário.
“A restauração ecológica não é uma ação imediata nem ornamental. É um processo que requer conhecimento do sistema, planejamento e tempo. Em muitos casos, intervir no local em uma etapa inicial é uma condição necessária para que os processos ecológicos possam se restabelecer”, explicou.
O acadêmico acrescentou que começar com uma superfície delimitada permite avançar com maior controle. “Trabalhar em cinco hectares nos permite ajustar decisões técnicas e construir aprendizados para as etapas seguintes”, afirmou.
Igualmente, precisou que a intervenção de espécies exóticas faz parte de uma decisão técnica fundamental dentro da restauração ecológica. “Em muitos territórios, essas espécies modificaram de tal forma as condições do ecossistema que, se não forem controladas, a restauração simplesmente não é viável. Elas continuam competindo por água, luz e nutrientes, e mantêm o sistema em um estado degradado do qual não pode sair por si só”, indicou.
Revelou que o objetivo não é eliminar, mas reduzir pressões ecológicas chave. “Trata-se de redirecionar a trajetória do ecossistema para um estado mais próximo de sua referência. É uma forma responsável de preparar o local e de criar as condições mínimas para que as ações de restauração — como a recuperação de funções ecológicas — tenham sentido. Restaurar é uma aposta de longo prazo por paisagens mais resilientes, que sustentem a biodiversidade e contribuam para o bem-estar humano”, enfatizou.
Trabalho coordenado
Esta primeira etapa, correspondente à preparação do local, implica em desocupar áreas atualmente cobertas por espécies exóticas, como eucalipto e aromo. Trata-se de ações delimitadas, que se desenvolvem entre fevereiro e março, sempre que as condições meteorológicas o permitirem.
O Campus Natureza UdeC lembra que este período coincide com a temporada de incêndios florestais, por isso, diante da declaração de alerta amarelo ou vermelho, o terreno é fechado de maneira preventiva para qualquer tipo de atividade.
Por sua vez, a Direção de Serviços da Universidade de Concepción ressaltou que os serviços se desenvolvem de maneira planejada e coordenada, com medidas de salvaguarda orientadas à segurança da comunidade universitária e de quem transita pelo setor.
Juan Emilio Espinoza Carvajal, Responsável por Propriedades e Gestão Florestal UdeC, afirmou que a Casa de Estudos conta com um programa de proteção contra incêndios florestais, com 30 medidas preventivas e de preparação para a resposta, e que, além disso, dentro delas se contempla a restrição de acessos e a suspensão de atividades quando as condições meteorológicas representam um alto risco de incêndios.
“Para isso, a Universidade rege-se pelos Alertas Precoces Preventivos emitidos pelo Senapred e pelo sistema Botão Vermelho da Conaf. Estas disposições aplicam-se tanto aos serviços em execução quanto às atividades que desenvolve o projeto Campus Natureza no terreno”, acrescentou.
Nesse sentido, pontua que “em situações de risco elevado, presença de incêndios ativos ou qualquer cenário que possa colocar em perigo as pessoas, procede-se ao fechamento preventivo das áreas florestais, priorizando sempre a segurança da comunidade universitária e dos visitantes” e que estas medidas têm uma boa recepção pela comunidade, “entendendo que seu objetivo principal é proteger a vida das pessoas e salvaguardar o patrimônio natural da Universidade”.
As ações em campo incluem movimentos controlados, sinalização preventiva e delimitação de áreas de trabalho. Os resultados da restauração ecológica, enfatizam desde o Campus Natureza UdeC, serão observados no médio e longo prazo, de acordo com os tempos próprios dos processos naturais.
Finalmente, é importante ressaltar que o setor onde se desenvolverão os trabalhos corresponde a um recinto de caráter privado, pertencente à Universidade de Concepción. Embora se reconheça que estes espaços são utilizados habitualmente pela comunidade para atividades recreativas e esportivas, a Universidade faz um apelo para evitar o trânsito pelas áreas intervencionadas e respeitar as medidas de segurança dispostas, a fim de prevenir situações de risco.
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