A discussão sobre a continuidade do Estado de Exceção Constitucional na Macrozona Sul ganhou um novo antecedente. A Multigremial de La Araucanía divulgou seu relatório de março de 2026, no qual sustenta que a diminuição de atos violentos registrada nos últimos anos não representa o fim do conflito, mas sim um cenário de contenção frágil marcado por capacidade operacional remanescente, mobilidade territorial e alto impacto econômico.

O relatório registra dois atos de violência durante março e um acumulado de cinco no primeiro trimestre deste ano. A série histórica apresentada pela organização mostra 72 casos em 2021, 60 em 2022, 68 em 2023, 37 em 2024 e 17 em 2025, considerando fatos ocorridos em Bío Bío, La Araucanía, Los Ríos e Los Lagos.

No entanto, o eixo do documento não está na queda dos números, mas na leitura política desses dados. Segundo a Multigremial, cada enfraquecimento do Estado de Emergência foi seguido por rebrotamentos de violência, por isso advertem que retirar ferramentas extraordinárias sem neutralizar previamente os grupos ativos poderia abrir um novo ciclo de escalada.

Com militares os ataques continuam

O relatório divide a evolução recente em quatro etapas. A primeira corresponde ao Estado de Emergência "completo", entre outubro de 2021 e março de 2022, período em que se registrou uma média de 21 atos mensais. Em seguida, identifica uma fase de "enfraquecimento do Estado", entre março de 2022 e junho de 2023, quando a média subiu para 33 ataques mensais e atingiu um pico de 42.

A terceira etapa, descrita como "reação tardia", estende-se entre julho de 2023 e fevereiro de 2024, com 23,8 atos mensais. Finalmente, de março de 2024 a março de 2026, o sindicato situa uma fase de redução, com 4,8 atos por mês, embora insista em que não existe uma desarticulação real das estruturas violentas que operam na zona.

Março: Deslocamento territorial

Em março, a totalidade dos fatos reportados correspondeu a atentados incendiários ocorridos na Região de La Araucanía, especificamente nas comunas de Lautaro e Teodoro Schmidt. Em janeiro, por sua vez, foram registrados ataques armados em Curanilahue, Angol e Concepción.

Para a organização, isso demonstra que a violência não desapareceu, mas modificou seu comportamento. O texto sustenta que durante 2026 os ataques se distribuíram em diferentes províncias e comunas, descartando uma focalização rígida e evidenciando uma estratégia adaptável que aproveita vazios territoriais.

Menos ataques, maior impacto

Outro dos pontos destacados é que a menor frequência não implica uma redução equivalente na gravidade dos fatos. Como exemplo, o relatório recorda o assassinato de três policiais em Cañete em abril de 2024 e o atentado contra Rucalhue em janeiro de 2025, onde foram destruídas mais de 50 máquinas.

Nessa linha, a Multigremial afirma que nos últimos 24 meses consolidou-se uma tendência de "menor frequência, maior intensidade", advertindo que normalizar uma média de 4,8 atentados mensais seria inaceitável sob qualquer padrão de segurança pública.

Golpe econômico

O relatório também coloca o foco no custo econômico do conflito. Entre março de 2024 e março de 2026, cifra em mais de 110 caminhões queimados as perdas sofridas por contratantes florestais, construtoras e plantas de áridos, equivalente a 1,3 caminhões incendiados por semana.

Acrescenta que apenas o atentado de Rucalhue provocou danos estimados entre US$5 e US$7 milhões. A isso soma-se que os contratantes florestais teriam perdido 49 caminhões entre 2024 e 2025, com um prejuízo total calculado em US$22,4 milhões.

Sete grupos ativos e 35% dos ataques reivindicados

Em seu capítulo final, o documento sustenta que 35% dos atentados foram reivindicados e que se identificam 39 fatos executados por sete grupos distintos, entre eles a Coordenadora Arauco Malleco (CAM), Weichan Auka Mapu e Resistência Mapuche Lafkenche, além de outras siglas registradas no relatório.

A conclusão do sindicato é direta: a violência não foi derrotada, mas contida. Por isso, propõe manter a presença reforçada do Estado, recuperar o controle territorial e avançar na desarticulação completa das organizações ativas. "Isto não está resolvido. Está contido", finaliza o relatório.

O alerta do dirigente

Consultada pela Rádio Bío Bío, o presidente da Multigremial de La Araucanía, Patricio Santibáñez, reforçou essa postura, ao indicar que "a dupla retirada do estado de emergência na zona sul pode ser uma decisão antecipada e, pelo menos, arriscada. Sabemos que quando não existiu esta medida, ou quando foi levantada, os fatos graves de violência aumentaram e atingiram níveis extremamente altos. O terrorismo continua presente, com cerca de quatro atentados por mês, algo que não é normal em nenhuma parte do mundo".

As promessas feitas em seu momento pelo candidato presidencial José Antonio Kast (2025) foram no sentido de mais e melhor segurança.

"O governo e o candidato fizeram uma promessa em matéria de segurança, e não pode ser que, logo no início, já estejamos falando de menos proteção. Para retirar o estado de exceção deve existir uma desarticulação completa dos grupos terroristas. Essa é a condição mínima".

Santibáñez sustentou que "a demanda das pessoas na zona de conflito, onde majoritariamente se apoiou o novo governo com votações próximas a 75%, é clara: ordem e segurança. Essa é a base. Isso é o que os cidadãos exigem do governo".

"Por isso, embora todos queiramos que esta situação termine, a razão para fazê-lo deve ser uma só: que os grupos estejam completamente desarticulados e que o objetivo tenha sido cumprido", explicou.

Fonte:BiobioChile

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