Para os habitantes do Biobío, a noite de 17 de janeiro de 2026 ficou gravada na memória coletiva como o início de uma série de incêndios florestais que devastaram grande parte da costa do território regional.

Hoje, quase quatro meses após os incêndios em Penco, as poucas árvores que permaneceram de pé em diferentes setores continuam mostrando rebrotos, gerando observações, análises e também emoções em torno do reverdecimento de um território profundamente afetado pelo fogo.

É o que observa a fotógrafa autodidata "Tere", que realiza caminhadas guiadas em espaços onde a natureza segue seu curso. Ela é coordenadora de educação ambiental na Fundação ReVerdes e, há quase um ano, impulsionou a criação de um clube de mulheres dedicado a explorar e documentar a biodiversidade do Biobío: Bichas del Biobío.

A Península de Tumbes, Talcahuano e o Parque Tumbes são alguns dos lugares que percorreram recentemente. Agora foi a vez de Penco, especificamente no setor Parque para Penco, onde, segundo ela, realizaram uma série de visitas a campo para medir a abundância do local após a perturbação causada pelos incêndios.

"Acho duríssimo ver a ferida que o fogo deixa, alto ego humano para percebermos o extrativismo latente existente em cada região ao longo do país", indica Tere, refletindo um olhar crítico sobre o ocorrido.

E é que a desesperança após os incêndios florestais, especialmente durante o processo de reconstrução, transformou-se em uma sensação cotidiana para muitas pessoas. "Pergunto-me como as pessoas daquele território fazem para não perder a esperança de reenraizar seu coração e dar sustento ao adverso", afirmou Tere.

"E pensei que o melhor exemplo de resiliência é ver como brota o nativo, apesar de o humano querer vê-lo carvão uma e outra vez", expressou, para depois acrescentar que "se a natureza pode se recuperar sozinha, por que nos desesperançar".

Esta não era a primeira vez que Tere visitava o setor Parque para Penco, próximo à zona onde se projeta a instalação de iniciativas vinculadas a Terras Raras na comuna pencona.

"Algumas semanas antes dos incêndios na zona, visitamos os queules junto com as Bichas del Biobío, onde pudemos contemplar o verde vibrante da floresta nativa", recordou. Ela também menciona o fluir da água, os caminhos rodeados de árvores e "os seres do micromundo que o habitavam", elementos que permanecem vivos na memória do grupo.

O reverdecimento de naranjillos, queules e outras espécies nativas, somado às fotografias registradas por Tere, deixam uma sensação de esperança para a biodiversidade de um território golpeado pelo fogo. A água continua fluindo e, no pleno início do outono no Biobío, o que antes era um postal dominado por tons alaranjados e amarelos começa novamente a tingir-se de verde.

Este processo estaria sendo impulsionado, principalmente, pela regeneração dos solos, junto ao aparecimento de brotos que ultrapassam um metro de comprimento e a presença de fungos, considerados por especialistas como bioindicadores positivos para a recuperação ecológica.

No entanto, Tere observa suas fotografias de uma perspectiva distinta. "Minha maneira de fotografar não se baseia em que seja um bom registro para ele ou a espectadora, tampouco que sejam perfeitos ou impactantes ao olho humano, muito pelo contrário, baseio-me na harmonia da paisagem onde posso ativar meus sentidos e ser natureza registrando memórias".

O processo de observar um território devastado que começa lentamente a se levantar pode gerar um forte impacto emocional. Através da fotografia, no entanto, também é possível dimensionar como a biodiversidade de Penco tenta se recuperar após um dos incêndios mais impactantes da época moderna no território nacional.

Fonte:Diario Concepción

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