Os incêndios florestais intencionais, a impossibilidade de segurar plantações e maquinário, e mais de uma década sem uma política efetiva de florestamento fazem parte dos principais fatores que, segundo a Acoforag, estão aprofundando a crise que o setor florestal chileno enfrenta.

Durante uma entrevista à Rádio Agricultura, o gerente da associação, René Muñoz, afirmou que a insegurança se transformou em um dos maiores obstáculos para o desenvolvimento da atividade, afetando a confiança de investidores, proprietários e empresas que operam nas regiões de Biobío e La Araucanía.

Incêndios que desestimulam o investimento

Um dos aspectos que mais preocupa o setor é o alto número de incêndios florestais provocados intencionalmente.

Muñoz afirmou que cerca da metade dos incêndios florestais registrados anualmente no Chile corresponderiam a atos intencionais, uma situação que, em sua opinião, gerou um forte impacto sobre a atividade produtiva e a disposição dos proprietários para plantar novamente.

A cada ano, o país registra entre 6 mil e 7 mil incêndios florestais, dos quais uma proporção importante teria origem deliberada, cenário que, segundo explicou, é agravado pelo baixo percentual de causas que terminam com condenações judiciais.

Nesse contexto, afirmou que tanto os incêndios quanto os atentados contra maquinário e infraestrutura florestal apresentam baixos níveis de esclarecimento, o que mantém uma percepção de impunidade entre aqueles que desenvolvem atividades produtivas na macrozona sul.

O dirigente lembrou ainda que os mega incêndios registrados em 2017 e 2023 deixaram cerca de 350 mil hectares de florestas destruídas, reduzindo significativamente a disponibilidade futura de madeira para abastecer a indústria florestal e as pequenas serrarias.

Sem cobertura para proteger o patrimônio

Outro dos efeitos da violência, indicou Muñoz, é a retirada das companhias de seguros de grande parte do sul do país.

Segundo explicou, há pelo menos seis ou sete anos as empresas têm enormes dificuldades para contratar seguros que cubram plantações, maquinário e infraestrutura florestal nas zonas consideradas de maior risco.

Em razão disso, rejeitou as versões que ocasionalmente circulam nas redes sociais, onde se atribuem alguns incêndios a supostas fraudes para receber seguros.

"Ninguém vai destruir seu patrimônio para receber um seguro que simplesmente não existe", afirmou, insistindo que a ausência de cobertura deixa expostas tanto grandes empresas quanto pequenos e médios proprietários.

Quinze anos sem uma política de florestamento

O gerente da Acoforag afirmou que outro dos problemas estruturais do setor é a falta de uma política permanente de fomento florestal.

Explicou que o Chile está há aproximadamente quinze anos sem desenvolver programas relevantes de florestamento, diferenciando esta atividade do reflorestamento obrigatório que as empresas devem realizar após colher suas plantações.

Os números, indicou, mostram uma queda significativa. Enquanto durante a década de 2000 eram florestados em média cerca de 40 mil hectares por ano, atualmente essa superfície mal chega a 1.800 hectares anuais.

Para o dirigente, essa diminuição compromete o abastecimento futuro de madeira, limita a instalação de novas indústrias e reduz as oportunidades de desenvolvimento econômico nas regiões florestais.

Nesse cenário, valorizou o anúncio do Ministério da Agricultura de impulsionar um projeto de lei de fomento florestal, iniciativa que, na opinião do setor, permitiria recuperar o florestamento de terrenos degradados e erodidos, respeitando a liberdade dos proprietários para decidir quais espécies estabelecer.

As prioridades do setor

Durante a entrevista, Muñoz apresentou cinco medidas que considera essenciais para recuperar o dinamismo da atividade florestal.

A primeira visa restabelecer as condições de segurança nos territórios onde atualmente é impossível desenvolver atividades produtivas.

Em segundo lugar, insistiu na necessidade de aprovar uma nova lei de fomento florestal que incentive o florestamento e permita recuperar a superfície plantada.

Também propôs contar com uma legislação específica sobre incêndios florestais que fortaleça a prevenção, estabeleça responsabilidades compartilhadas entre o Estado e os proprietários e permita enfrentar com maior eficácia esse tipo de emergência.

Como quarta prioridade, mencionou a necessidade de simplificar os processos administrativos para o manejo sustentável da floresta nativa, eliminando entraves burocráticos que, segundo indicou, dificultam o desenvolvimento de milhares de pequenos proprietários.

Finalmente, pediu para impulsionar com maior força a construção em madeira como uma política pública de longo prazo.

Muñoz destacou que, enquanto em vários países europeus esse material participa em entre 80% e 90% das edificações, no Chile sua utilização mal chega a 20%, apesar de suas vantagens ambientais, estruturais e de sustentabilidade.

Impacto nas regiões

O gerente da Acoforag afirmou que a atividade florestal constitui um dos principais motores econômicos do centro-sul do país, portanto a atual crise transcende as empresas do setor.

Em sua opinião, a diminuição dos investimentos afeta diretamente contratantes, transportadores, pequenas serrarias, fornecedores de serviços, comerciantes e milhares de famílias que dependem da cadeia produtiva florestal.

"Sem segurança não há empresas; sem empresas não há investimento; e sem investimento não há trabalho nem desenvolvimento. O que precisamos é recuperar as condições para voltar a produzir, gerar emprego e continuar impulsionando o crescimento das regiões", concluiu.



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