A região de La Araucanía voltou a ser cenário de uma onda de violência rural durante o fim de semana, com quatro atentados incendiários registrados em menos de 48 horas que deixaram não apenas maquinários destruídos, mas também um crescente clima de temor na área.

Os ataques ocorreram entre sexta-feira e a madrugada de domingo e afetaram propriedades nas comunas de Vilcún, Carahue e Cunco. Nesta última foi relatado o fato mais recente, ocorrido nas primeiras horas da madrugada de domingo.

Diante desta sequência de eventos, o Governo anunciou a apresentação de duas queixas pela Lei Antiterrorista, correspondentes aos ataques de Vilcún e Carahue, enquanto o mais recente, em Cunco, estaria "em avaliação".

MEDO E INVESTIMENTOS

Do setor florestal, os sindicatos reagiram com irritação e preocupação. O presidente da PymeMad Biobío, Michel Esquerré, afirmou que os atentados estão desestimulando o investimento e enfraquecendo um setor chave para a economia.

"O setor florestal é um setor que planta árvores a 20 anos prazo. É resiliente e o mais verde, já que planta árvores e produz madeira. Se o país quer descarbonizar sua economia, é o lugar onde temos que colocar o futuro", declarou.

Neste contexto, explicou que —como é um negócio a tão longo prazo— os eventos ocorridos durante o fim de semana em La Araucanía violam esse processo, desestimulam o investimento e geram medo.

Esquerré alertou que a questão de fundo não é o ataque em si, mas "o medo que se gera de investir no longo prazo. Aqui há um problema sistemático: não estamos abordando como país o problema verdadeiro de fundo".

O representante do setor florestal afirmou que a saída para a crise de violência requer um acordo que envolva todos os atores. "É uma receita que devemos acordar entre todas as partes do Estado: a sociedade civil, a política, os povos originários, todo mundo", declarou.

Em sua opinião, a principal falha reside na falta de segurança e inteligência para enfrentar os atentados e no fato de não estarem sendo utilizados os instrumentos "para encontrar as pessoas que estão fazendo-os. Acho que aí falta bastante coordenação e que a política deixe de olhar no curto prazo e comece a olhar no longo prazo, para que permita que essas instâncias de coordenação funcionem", indicou.

INSEGURANÇA E POUCA INTELIGÊNCIA

O gerente da Associação de Contratistas Florestais (Acoforag), René Muñoz, lamentou a persistência da violência e acusou um "abandono" do setor.

"No nosso caso, dos contratistas florestais, estamos há 28 anos já com este assunto. Portanto, nossa postura é de cansaço e de ver que o Estado, com tanto tempo que teve para solucionar este problema, abandonou o setor", detalhou.

A agrupação liderada por Muñoz é composta por cerca de 120 empresários associados ao ramo florestal que operam em diferentes regiões do país. Segundo seus registros, desde 2014 sofreram 515 atentados que deixaram 1.835 equipamentos e caminhões florestais destruídos. Destes, mais de 1.100 correspondem a maquinários que trabalham diretamente nas florestas, e não a veículos de transporte.

"O dano patrimonial e humano tem sido tremendo. Há empresários que tinham sonhos, que deram trabalho, e tudo isso se perdeu. Custa entender como em um país como Chile se normalizou esta violência", declarou o dirigente.

Muñoz acrescentou que a falta de políticas de fomento e de prevenção de incêndios agrava ainda mais o panorama: "No mundo, todos os países estão florestando mais, e o Chile é a exceção. Não há políticas para fomentar a florestação nem para controlar os incêndios intencionais. O setor está submetido a pressões por todos os lados e isso impede que contribua para o desenvolvimento do país", concluiu.

PRIORIZAR AS ZONAS MAIS AFETADAS

O presidente da Corporação Chilena da Madeira (Corma) em La Araucanía, Los Ríos e Los Lagos, Antonio Soto, qualificou os fatos como "lamentáveis" e alertou que a situação "tem se complicado" apesar dos anúncios de diminuição da violência na área. "Começamos na sexta e sábado com ataques a agricultores, e no domingo foi registrado outro atentado em Cunco, onde queimaram maquinário florestal. Estamos muito preocupados com o que vem, principalmente agora que se aproxima a temporada de incêndios", indicou.

Como medida urgente, propôs "priorizar as zonas mais afetadas" e implementar controles permanentes com presença policial ou militar. "Deve haver barreiras duras, com controle de veículos, e fortalecer a inteligência para antecipar-se aos fatos", enfatizou.

Soto alertou ainda que a violência está afetando não apenas o setor florestal, mas também agricultores, empresas de serviços e até funcionários da saúde. "Isto está reduzindo o investimento. Ninguém se atreve a inovar ou instalar projetos na região", concluiu.

Fonte:La Tribuna


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